DIÁRIO A BORDO DE UM ELÉCTRICO

Luísa Dacosta

 

Manhã de Primavera (entre a Circunvalação e o Jardim do Passeio Alegre)

Os guindastes de Leixões ficaram para trás. O eléctrico corre em direcção ao Castelo do Queijo e um ar marinho, sápido e pegajoso, vem às lufadas trazido pelo vento norte, que entra por uma das janelas abertas. Sardinha em lata tem conta. Mas no eléctrico cabe sempre mais um. E é o que acontece, na paragem do redondel, frente à estátua. Entramos na Avenida de Montevideu com as antigas vivendas a transformarem-se e restaurantes e clubes, outras a serem substituídas por andares, outras a degradarem-se à espera de um melhor preço de venda. À direita a esplanada está ainda pouco concorrida: alguns velhos madrugadores a lerem as notícias, dois fãs de footing e o tlim-tlim de uma bicicleta a responder às campainhadas do eléctrico. Depois do Molhe, apetece correr os olhos pela balaustrada. E da pérgola, caramanchão de cimento, olhar o mar, de flor, encristado pela nortada. Uma traineira faz-se ao largo em direcção ao horizonte. Entre as manchas de cor dos canteiros afloram as mantas rochosas da beirada em negro, cinza, lama e rosa. Do lado da terra sucedem-se os andares, as lojas, as agências bancárias da Avenida Brasi. E, de súbito, é a Senhora da Luz: casas de rés-do-chão e andar mais rasteirinhas. Depois do boqueirão da Rua de Diu, que nos devolve o azul e a entrada da Praia dos Ingleses é já o coração da velha Foz e quase se podem fazer compras da janela: no talho, na padaria, no bazar ou supermercado. Mesmo o peixinho miúdo da canastra. Ou cumprimentar conhecidos: - Bom dia! Bom dia! O mar não se perde e arpoa-se pelas travessas da Senhora da Luz e da Praia. E quase logo depois da barbearia, cujo telhado fica ao rés da nossa janela, e onde se vêem esticadas e descontraídas as pernas do primeiro freguês é já o ar mais lavado da Praia da Luz, onde, sem as vermos, sabemos as gaivotas a passear, domésticas, como pombas. No alto a lua é uma água viva, translúcida, translúcida, no oceano azul do céu. Contornamos o forte de São João. Deixamos já o farol e, frente ao Cabedelo, a Praia das Pastoras. Que nome evocativo! Em que tempo outro, e perdido, vinham elas trazer aqui a pastar ervas e maresia os seus carneirinhos? Mas que os traziam, traziam. E um deles, agaiado e perdido do rebanho, com os seus corninhos de biscoitinho queimado, ficou para sempre a pular em cima do Chalé Suíço - e espera-me, familiar, na paragem do jardim.

in: Máxima
Abril de 1992