Obelisco da Memória Encenação do Desembarque das Tropas Liberais na praia de Arenosa, levada a cabo pelos alunos da Escola EB 2,3 de Lavra no âmbito da Área Escola


Preparação do desembarque
Formação do exército
Preparativos para o cerco ao Porto
Rumo ao Porto
O povo saúda o seu rei
O povo saúda o seu rei

 

Obelisco da Memória - brazão e bandeira de LAVRA

oobelisco da memória, localizado na praia que lhe tomou o nome, antes conhecida por praia de Arenosa e também "praia dos ladrões" - porque muito amada por estes para aí fazerem as suas descargas furtivas uma vez que era muito recôndita, destina-se a perpetuar a memória do desembarque de D. Pedro IV à frente do exército que nos libertaria do jugo absolutista de seu irmão , D. Miguel, no dia 8 de Julho de1832.
Foi o duque de Ávila, na qualidade de Administrador Geral do Distrito do Porto, o correspondente ao actual cargo de Governador Civil, quem mandou erigir o monumento. A colocação da primeira pedra aconteceu no dia primeiro de Dezembro de 1840, não por acaso duzentos anos após nos termos libertado do cativeiro espanhol, portanto uma data de grande valor simbólico uma vez que assinalava o segundo centenário da Restauração da Independência, com toda a pompa e circunstância:" o estrondo das girândola e foguetes acompanhados de repiques de sinos, foi o toque de alvorada para os habitantes do Porto, anunciando-l -lhes o despontar da aurora, e em breves momentos de todos os lados da Cidade se viam correr pessoas de todas as classes e jerarquias com direcção ao largo da Casa da Administração Geral, préviamente designado como ponto de reunião. ... Às 8 e meia horas da manhã chegou de liteira o Ex.mo Bispo eleito D. Jerónimo, acompanhado dos empregados, do Secretário Geral do Distrito. ... Às 9 horas em ponto se pôs em marcha o préstito ... O préstito seguiu pelo Largo de Santo Ildefonso, rua de Santo António, Praça de D. Pedro, rua das Hortas, rua do Almada, Campo da Regeneração, rua da Boavista, Cedofeita, Torrinha, Vilar, Lordelo, Matosinhos e Leça, até Arenosa de Pampelido. Quando chegou a esta praia memorável, tinha mais que duplicado. ... Eram onze e meia quando o préstito assomou ao sítio famoso do desembarque do Exército Libertador. ... Brilhantíssimo era o espectáculo que a praia então oferecia. Mais de três mil pessoas estavam ali reunidas. ... Nessa multidão imensa notavam-se muitos dos valentes, que ali haviam desembarcado... A base do monumento e a elegante barraca, que junto dele se armara, estavam adornadas de bandeiras; e no próprio sítio, em que se havia de colocar a pedra fundamental, flutuava o pavilhão que tremulou na ocasião do desembarque na corveta Amélia que conduziu o Imperador ..." ( in Auto da "Memória, citado por António Francisco Ramos no seu livro"LAVRA - apontamentos para a sua monografia").
Apesar do assinalável êxito da cerimónia, o monumento , custeado por donativos e subscrição pública, demoraria vinte e quatro anos a concluir!
De pais para filhos vão-se transmitindo, no inverno, ao calor da lareira, vários episódios ligados ao desembarque e à passagem dos bravos soldados pelas contíguas localidades, até chegarem ao Porto. Estes episódios fazem parte da memória colectiva do povo de Lavra. Por exemplo, numa casa sita no lugar de Paiço, há uma lápide que assinala que ela pertenceu a Francisco José da Silva, que fazia parte da armada de D. Pedro IV e um dos 7 500 "Bravos do Mindelo", designação pela qual ficaram conhecidos os homens que constituíam a esquadra comandada pelo almirante Rose George Sartorius que desejava restabelecer os democráticos ideais liberais triunfantes na Revolução de 1820 e consignados na Constituição de 1822. Diz-se que foi ele, conhecedor prático desta costa, quem indicou a praia de Arenosa como a mais própria para se fazer o desembarque com facilidade e sem grande perigo, dado que sabia "de saber de experiência feito" que o mar ali era bastante profundo quase até à areia. Os seus descendentes ainda hoje são conhecidos pela alcunha de Tenente: António do Tenente, José do Tenente.
Há uma outra casa que fica a cerca de quilómetro e meio da praia de Arenosa, conhecida por casa do Rei e os seus descendentes pela alcunha de Rei( Fernando do Rei, Laura do Rei), onde o rei D. Pedro tomou o pequeno almoço. Conta-se que ao passar por lá,a caminho de Pedras Rubras, onde ficou acampado para no dia seguinte entrar no Porto, viu o lavrador duma casa abastada a mungir as vacas e logo aproveitou para lhe pedir uma malga de leite ainda morno , para grande orgulho do lavrador por poder servir tão ilustre convidado e assim ver perpetuado tão nobre acto.
Em Pedras Rubras, na casa do lavrador Andrade, onde D. Pedro e o seu estado-maior pernoitaram,existe também uma lápide imortalizando esta estada. E ficou célebre a anedota do peixe dos três efes. Os moradores de Pedras Rubras fizeram,nessa ocasião, grande negócio com a venda de comestíveis aos soldados.Assim, um oficial de barbas grandes entrou numa taberna e perguntou o que havia para comer e o vendeiro respondeu-lhe:"Há peixe dos três FF, patrão!" Não tendo o oficial conseguido decifrar a mensagem, inquiriu sobre o seu significado: "É faneca, fresca e frita", respondeu o vendeiro. O militar comeu uma faneca, tomou café, que mandou preparar, e meteu a mão ao bolso para pagar; porém, apercebeu-se de que não tinha dinheiro. Ficou pálido e procurou desenvencilhar-se da situação airosamente, pedindo ao vendeiro que acrescentasse outro F ao peixe:" faneca fresca, frita e fiada". O vendeiro zangou-se muito, mas o oficial deitou-lhe uns olhos que ele não via onde se meter e não lhe disse nem mais uma palavra. O que é um facto é que o militar saiu sem pagar; todavia, daí a pouco voltou e perguntou ao vendeiro se era o dono da casa. Este respondeu-lhe, ainda cheio de medo:"Não, não sou, mas é como se o fosse porque estou para me casar com uma filha do patrão; por isso, se o senhor oficial quer mais alguma coisa, é só dizê-lo e pagará depois quando por aqui passar". O militar retorquiu-lhe:"Obrigado, mas não tenciono tornar a passar por aqui, agradeço-te a franqueza e, dado que estás para casar, aqui tens duas peças de ouro para comprares uns brincos para a tua noiva. Adeus!" Quando as tropas, no dia seguinte, iniciaram a sua marcha rumo ao Porto, o vendeiro, que estava à porta a desfrutar o espectáculo do desfile, reconheceu o oficial de barbas a cavalo no meio de outros que lhe falavam com muito respeito e cortesia. Foi , nesse momento, que ficou a saber tratar-se de D. Pedro IV e a partir daí nunca mais deixou de chamar à faneca o peixe dos quatro FF.
Este episódio vem narrado em O Panorama, vol. XV, pág. 371 e reportado na obra já citada anteriormente"LAVRA - apontamentos para a sua monografia", mas o aqui narrado apresenta ligeiras alterações frásicas da nossa lavra.
Precisamente com o escopo de manter viva esta memória colectiva lavrense, os alunos da nossa escola, Escola EB 2,3 de Lavra, no âmbito do seu projecto de Área Escola e em conjunto com uma dinâmica e voluntariosa associação local, a ATSVL - Associação de Trabalho Social e Voluntário de Lavra, recriaram, com pompa e circunstância, tal como no dia primeiro de Dezembro de 1840, o Desembarque das tropas liberais na praia de Arenosa e encenaram dois episódios: o beija-mão aos povos de Lavra e Perafita e a "venda" com o vendeiro do peixe dos quatro FF. Foi um projecto de grande fôlego, como bem se pode imaginar, que requereu um longo trabalho de bastidores de encarregados de educação, alunos, auxiliares de acção educativa, professores, Conselho Directivo e ATSVL. Da conjugação de todos os esforços, no dia 15 de Junho de 1997 recuámos cento e sesenta e cinco anos e revivemos o arraial de então. Para além de pedagógico, foi bonito e empolgante pela participação que conseguiu galvanizar.