1870: O culminar da crise da vinha Duriense

    Na primeira metade do século XIX, o vinho do Porto ocupava ainda um lugar cimeiro na tabela de exportação portuguesa. No entanto, essa situação foi alterada após cerca de 1867, devido a dois factores primordiais:

- O oídeo e a filoxera;
- A estagnação do mercado do vinho.
 
 

Oídeo ("oidium tuckeri") é a designação atribuída á epidemia que, a partir de 1852, alastrou no território vinícola do Alto Douro, causando a perda de muitas vinhas e consequentemente uma crise de subprodução.
Uma vez descoberto que o tratamento da epidemia passaria pelo enxofre, os produtores recorreram a esta solução, sem terem, contudo, os devidos cuidados necessç;rios á sua aplicação. Assim, e para evitar o mau cheiro, provocado pela desinfecção, eram lançadas nas vinhas substâncias cujos efeitos nocivos tornavam o vinho impróprio para consumo.

Desta forma e se o combate ao oídeo se tinha verificado eficaz, tornava-se agora a própria solução na razão da continuação da crise.
A colheita do Vinho do Porto de 1857 ficou marcada pela necessidade de análise química e pela nomeação, feita pelo ministro João Andrade Corvo, de uma comissão cuja função era "verificar os sistemas de fabricação de vinho nas várias regiões do país".

Apesar da eficácia no combate ao oídeo, os níveis de produção do vinho duriense nunca mais recuperaram totalmente e cerca de oito anos mais tarde dá-se o aparecimento de uma nova epidemia, esta de mais difícil solução e também mais devastadora: a filoxera.
A origem da filoxera remonta aos Estados Unidos da Am&eçacute;rica, durante a década de 50, onde levara já ao extermínio de dezenas de milhares de videiras. Tendo chegado á Europa através da importação de videiras americanas a filoxera invadiu também Portugal, cujo primeiro caso surgiu em Vila Real, na primavera de 1867. A propagação da doença á região do Vinho do Porto foi de tal forma rápida e devastadora que levou o governo a adoptar medidas "quase de foro de salvação nacional".

Na verdade, por volta de 1870 tinha-se generalizado a crise e o flagelo da região vinícola do Alto Douro era praticamente total.
No decreto de 25 de Janeiro de 1871 afirmava-se:"Constituem os vinhos, depois dos cereais, a nossa principal lavoura, a nossa mais valiosa produção agrícola.(...)E tanto assim é que nenhuma nação, guardadas as proporções da superfície territorial, nos excede na abundância, excelência e variedade dos vinhos."

O ataque deste pequeno insecto de 8/10 centímetros (responsável pela epidemia) destruía as raízes das videiras, que não conseguiam sobreviver e propagava-se a tal velocidade que houve necessidade em 1887, de formar sindicatos de defesa das vinhas contra a filoxera e de se realizar exposições dos nossos vinhos com o intuito de incentivar a exportação.
Ainda como tentativa de controlar a propagação quase total da filoxera, o governo vai tomar medidas, proibindo o transporte de videiras contaminadas para regiões indemnes e a importação de castas americanas.

Apesar de atingir também a produção dos chamados "vinhos comuns", a epidemia da filoxera fez-se sentir mais fortemente na produção do Vinho do Porto, fragilizado pelo oídio.Deu-se então uma segunda crise de subprodução, esta bastante mais preocupante pelos níveis que atingiu.
 

"A destruição da viticultura duriense pela filoxera"
 
Anos Diminuição da produção (hectolitros) Superfície invadida (hectares) Superfície perdida ou destruída (hectares)
1877 33600 4200 ----
1880 240600 ---- ----
1881 ---- ---- 5000
1888 536400 ---- 31800
 

A exportacã o dos vinhos durienses entra em crise e a sua importância em termos de mercado estrangeiro é um pouco substituída pelos "vinhos comuns",que tendo resistido á filoxera,ocuparam o lugar da produçã o francesa e espanhola,igualmente afectada pela epidemia.
Sintetizando,num período de cerca de vinte anos a produçã o de Vinho do Porto é praticamente toda destruída e a maioria dos viticultores entra em ruína.O processo de replantaçã o das vinhas afectadas pela filoxera teve início nos anos setenta,mas processou-se muito lentamente,pelo que muito tempo depois de controlada esta doença diversas terras de vinha permaneciam incultas.

Embora se atribua por vezes (de forma incompleta) a crise do vinho duriense na segunda metade do século XIX apenas às epidemias do oídio e da filoxera, esta teve tamb&eçacutem a sua origem na estagnaçã o do mercado do vinho.Aliçs, este último factor é,segundo M. Halpern Pereira,o "problema fundamental da regiã o" nesta época.
 

"Exportaçã o do Vinho do Porto (em hectolitros)"
 
Anos Vinho exportado Anos Vinho exportado
1865 215285 1889 299868
1866 215177 1890 305302
1867 180935 1891 309968
1868 190177 1892 362926
1869 219653 1893 259285
1870 239815 1894 241086
1871 231832 1895 272509
1872 270778 1896 284561
1873 273622 1897 280992
1874 286490 1898 313284
1875 324270 1899 279168
1876 314689 1900 275314
1877 328993 1901 268401
1878 262071 1902 274723
1879 260476 1903 256357
1880 334285 1904 215861
1881 297193 1905 235211
1882 317622 1906 263616
1883 351971 1907 245112
1884 323698 1908 230512
1885 347872 1909 234573
1886 401428 1910 311359
1887 281320
1888 268024
 

IN M. Halpern Pereira

Assim,a partir de 1850,o Vinho do Porto vai perder o seu lugar privilegiado, por ele ocupado desde o século XVIII no mercado britânico.Este factor,que se deve essencialmente á política de livre-cambismo entretanto adoptada pela Grã -Bretanha(o que eliminava consequentemente os privilégios anteriormente conseguidos á comercializaçã o do Vinho do Porto neste território) provoca uma forte regressão económica na zona do Douro,largamente dependente do mercado britânico.

   

Bibliografia

  • História de Portugal vol. VII, Edição Monumrntal - Portucalense Editora
  • História de Portugal vol. III, 11º ano - Porto Editora
  • História de Portugal em datas - Círculo de Leitores
  • Da decadência da Monarquia ao advento da República 6, cadernos de história 11º, Cursos Complementares - Edições Sebenta
  • História de Portugal, a Monarquia Constitucional, vol IX - Clube Internacional do Livro

   

Trabalho realizado no Colégio Nossa Senhora da Bonança pelas alunas, com orientação do Prof. José Guerner.