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O Douro
Existiria o Porto sem Douro? Nasce o Douro perto da serra de Cantábrica de Urbion, na Castela Velha; corre pelas terras leonesas e sempre para ocidente, cortando o relevado nordeste peninsular, até encontrar as ondas atlânticas. Atravessa montes e serras, num esforço veemente para encontrar caminho, razão porque as águas se precipitam, por vezes agitadas e violentas, em fundos vales ou entre alcantiladas escarpas. Seu leito é pedregoso e desigual, obrigando a corrente a ferver e a espumar em cachoeiras e saltos sem conta. As águas sombrias e indomáveis mal deixam reflectir em si a linha cimeira dos cerros adustos que lhe fazem sentinela. Nas margens abruptas - altas ondulações terrosas - apenas alveja de longe a longe, fora dos povoados, a pincelada branca de algum casal. O Douro é um rio de velhas tradições. Já os nomes clássicos de historiadores e geógrafos gregos e romanos se lhe referem em prosa ou em verso. Nas letras nacionais, sem número foram aqueles que lhe têm dedicado sua atenção, incluindo Camões, o grande génio da Raça, que por isso lhe chamou o Douro celebrado. Em tempos idos, foi natural fronteira luso calaica; e, de certa maneira, limite temporário da civilização romana no seu desenvolvimento para o norte. Bem próximo do seu curso acidentado e até à vista das suas águas, floresceram cidades e povoações de alto nome há cerca de vinte séculos! Porém, no nosso tempo, a razão que lhe dá alta soberbia é de outra ordem; mas o contributo de valor que desde há três séculos traz ao orgulho nacional não é menor. Tem a glória de cortar uma região excepcionalmente dotada pela Providência de um tão grande número de condições admiráveis, que lhe foi possível dar ao mundo um dos seus melhores vinhos, um daqueles vinhos cuja fama devia igualar a do Falerno dos tempos áureos de Roma. Essa preciosidade, verdadeiro néctar, quando nos primeiros séculos da nacionalidade já era possivelmente embarcado com outros vinhos para os portos do norte da Europa, chamava-se vinho de Portugal; mais tarde (no século XVII), era o vinho do Douro e mais tarde ainda, com o Marquês de Pombal, o vinho da Companhia - ou o vinho fino, perante as suas qualidades fidalgas; e hoje, finalmente, corre todos os continentes, em meio de invejosa concorrência, com o rótulo bem regional de Vinho do Porto. Produto maravilha, nascido de um verdadeiro milagre da terra e do clima; castas de videiras há séculos aclimatadas sobre geios ou calços, que escalam as encostas à semelhança de um estádio monstruoso; terrenos pré câmbricos e xistosos; no Verão, um calor de fornalha; o frio, o vento, o gelo, a tempestade, no Inverno! Como rio de montanha, o Douro é de navegação difícil. Não o vence qualquer embarcação, nem o governa qualquer mestre. Um mesmo e único tipo de barco encontra-se, através dos séculos, em seu laborioso tráfego e, assim mesmo, à custa de longa e penosa experiência. Já os antigos diziam, com razão e conhecimento de causa, que era rio de mau navegar
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Rio Doiro, rio Doiro
Rio de mau navegar,
Dize-me, essas tuas águas,
Aonde as foste buscar;
Dir-te-ei a pérola fina
Aonde eu a fui roubar.
Ribeiras correm ao rio,
O rio corre a lá mar.
"Cantiga primeira" do romance "Miragaia",
uma das mais belas e simples evocações do Douro.A sua corrente alterosa é permanentemente violenta, e só abranda em frente a Melres, já próximo do Porto. O acesso do rio é difícil pelos inesperados perigos que surgem, em constante variação de local e dependente do regime das águas, sendo inúmeros - pois são mais de duas centenas os de mor e menor monta - os pontos, rápidos, cachões e galeiras, que se multiplicam pelo seu curso, o que fez dizer ao poeta "mil pontos, mil quebradas". Agora que o rio, dormente, ultrapassado, poluído, vive das recordações de si próprio, das evocações e das histórias dos lugares a que deu forma e que o Porto extravasa os limites tradicionalmente desmarcados, rio que há muito deixou de ser o que era, e que perdeu quase todos os seus barcos. O significado, o importante, é que, no seu silêncio, este rio "fora de moda" representa o pulsar do Porto, a sua memória, o seu espelho-imagem-confidente. Sem o Douro, talvez a cidade existisse. Maior ou mais pequena, talvez existisse, mas certamente não a poesia que lhe dá sentido.
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