Os Barcos Rabelos

Desde quando é que o barco rabelo navega nas águas do Douro? Que povo o trouxe? Qual a cultura a que pertence?
São problemas que surgem logo de principio quando procuramos estudar este barco e, para responder aos quais, apenas indicar leves indícios, vagas referências, mas que, apesar da sua insignificância, alguma coisa nos deixarão no espírito, com subsídios para nos ajudarem a colocá-lo no tempo e no espaço. Será isso o primeiro passo para lhe buscar a velha origem.
É impossível separar, historicamente, a navegação do Douro do comércio a que os ingleses chamariam Port Wine e do seu primeiro meio de transporte, o barco rabelo.
Num primeiro exame ao aspecto geral do rabelo, temos de concluir que estamos em presença de uma embarcação de procedência longínqua.Fig.1
Sujeitando-o ao confronto com diversos barcos clássicos do Mediterrâneo oriental especialmente, essa opinião parece confirmar-se. Porém, recordando que quase todos os outros barcos fluviais e do litoral norte português, são de origem nórdica, temos de reconhecer quanto curiosa seria a hipótese de vermos no rabelo a única embarcação fluvial a fazer excepção.
Este reparo pode ter importância para o problema, visto que topamos em Shulten com a notícia de um barco do norte da Europa, semelhante, nas suas características mais salientes, ao rabelo.
Se é certo que em algumas embarcações do Mediterrâneo oriental encontramos o leme do barco manejado directamente do castelo do comando, tal qual como no barco do Douro, a notícia de uma embarcação idêntica entre os povos do norte complica o raciocínio a seguir.

 

Verdade seja que não é completamente impossível ligar estes dois factores se atendermos a que aqueles barcos são à vela, embora tenham a ajuda de remos.
Não impede esta referência o citar que, enquanto a generalidade das embarcações mediterrânicas usavam como lemes as duas pás, os barcos do norte, só empregavam um remo. É curioso apontar que, entre os vikings, este leme era auxiliado pelos remos, tal como acontece nos rabelos.
Ora, a navegação à vela considera-se originária do Mediterrâneo. Assim, se vem do norte um barco com vela, temos de lhe reconhecer a origem oriental, ou pelo menos uma grande influência sua, posto que essa expansão se tenha dado numa época ainda muito recuada.
De resto, a comunidade de velas, no norte e no sul, não terá essa explicação?
Os tartessos foram os primeiros que navegaram para o norte, e não os fenícios, sendo mesmo, os percursores dos frísios, saxões, normandos e anseáticos, como bem deduz Shulten, com a sua reconhecida autoridade.
Eles usavam velas como os cretenses e outros navegantes do Mediterrâneo, o que pode explicar, de maneira bem lógica, o aparecimento deste meio de locomoção aquática, nos mares do norte. E curioso é também registar ainda que este mesmo povo, juntamente com as velas, empregavam os remos. O que não poderiam dispensar, visto que a vela que usavam era só para aproveitar o vento de popa. A navegação à bolina foi descoberta pelos portugueses, séculos depois. Apesar desta atribuição da origem da navegação à vela, note-se que as embarcações nórdicas aproveitavam muito mais o vento do que as suas congéneres do sul, que se auxiliavam sempre com as forças dos remos. É a diferença que vem de navegar do Atlântico ou no Mediterrâneo.
O barco inicial do Douro, o barco aborígene, digamos assim , forrado com peles de animais, tal como foi usado pelos tartessos, oestrímnios, e outros povos pré romanos da Península, mas especialmente pelos primeiros, veio, certamente, senão a ser substituído, pelo menos muito influenciado pelos povos navegadores do norte.
Esta influência, no ocidente peninsular, documenta-se bem, segundo o testemunho de Pokorny, que, referindo-se aos já citados barcos de couro dos Tartessos, diz "... são um produto dos habitantes precélticos da Irlanda, que os celtas chamavam Fir-bolg, isto é, homens dos barcos de pele". Ora, da mesma natureza, como já disse, eram os barcos antecessores do rabelo no Douro.

 

O que é certo é que aos barcos de couro, sucederam os de madeira e não menos certo, que estes, pela maneira como são construídos, são do norte. Depois com os romanos, e já com os outros povos orientais que por aqui passaram e se fixaram, outras características teriam surgido, aperfeiçoando a adaptação às necessidades da navegação do curso difícil do Douro.
Temos de reconhecer a possível, a necessária ancestralidade nórdica, ainda pela dificuldade que havia em adaptar um barco oriental, embora de uso fluvial, mas sempre de um rio de planície, ao Douro, que é um típico rio de montanha.

 

E desta natureza, são em geral todos os rios do norte da Europa.
Como barco de rio de montanha, o rabelo não tem quilha, ou melhor, transformou-se em barco de fundo chato; além disso, a maneira da sua construção, de tábuas sobrepostas - tábua trincada - é nórdica (seguiu a que os ingleses chamam, segundo Van Loon, Clinker built, em oposição à do Mediterrâneo.

 

Do oriente, vem, talvez, o testemunho morfológico e o velho eco do Latio na actual nomenclatura do rabelo.
Quanto à vela, é quadrada, formato comum aos barcos do norte e do sul. Porém, quanto aos mastros, novo reparo se deve fazer. Os primeiros só usavam um, enquanto que os segundos usavam também um mastro à proa.
Analisando os remos, possivelmente ainda iguais aos primitivos usados nos barcos do Douro que é o assunto deste sumario trabalho, vemos que eles se integram, de algum modo, no grupo que parece proceder de povos com tradições totémicas.

 

Isto é um elo a prender o rabelo à cultura do mundo antigo mediterrânico e oriental.
Há ainda, nos barcos vikings, o facto de não terem convés. Apenas apresentavam coberta, uma espécie de câmara, quando se deslocavam com mulheres e crianças. Temos nós, no rabelo, o taburno ou coqueiro, que bem pode ser uma reminiscência dessa câmara dos barcos dos homens do norte.
Já no século XIX, nos fala das embarcações do Douro, a doação de Ortonho II, dada em Crestuma e inserida no Livro Preto da Sé de Coimbra.
Depois, já formada a nacionalidade, são muitos os documentos que se referem ao barco do Douro, ao rabelo. O foral de Gaia, do século XIII, por exemplo, cita as barcas do vinho e os navios de rio e mar.
Por outro alvará de 24 de Dezembro, era vedado o poderem navegar de noite, e o desrespeito pelas marcas, que eram os sinais gravados nas penedias das margens e que indicavam a altura das águas, para assim regularem a carga. O barco rabelo passou, propriamente, a ter a sua identidade bem definida, em 1792, quando a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto-Douro, publicou os alvarás e mais documentos que se relacionavam com a notável instituição pombalina. Nessa publicação, conhecida vulgarmente por Leis da Companhia, encontram-se preciosos informes, referentes tanto ao barco como aos seus tripulantes, como ainda ao tráfego a que se destinavam.
Ficamos assim informados de que uma disposição legal, de espírito previdente e prático, e, alvará de 16 de Dezembro de 1773, limitou o tamanho dos barcos, que estavam a aumentar de tonelagem, levando cada vez mais pipas, o que trazia maiores riscos de naufrágio. Para evitar o perigo na navegação, em 1803, uma disposição limitou a tonelagem dos barcos e proibiu a navegação nocturna, por razões de segurança.
Ao descer o rio, os rabelos traziam o vinho do Douro. Constituíam, no passado, senão o único meio de transporte entre o Porto e as terras de riba-Douro, pelo menos o mais acessível.
Inalterável na forma durante séculos e séculos, o deslizar do barco rabelo é solene, majestoso no equilíbrio do seu conjunto, com grandeza no aparato rude da sua arquitectura.
O casco , de madeira ordinária, é feito ao jeito das águas sombrias do rio. A vela, de linho humilde, entrega, confiantemente, os seus destinos aos desígnios de Deus.

 

O colorido sóbrio e pitoresco do barco, a bizarria dos trajes dos marinheiros, a grandeza da paisagem, tudo se reúne para que no nosso espírito alguma coisa fique marcado indelevelmente.
Pelo seu todo, desde um tempo majestoso e bizarro, é que o rabelo é a mais típica das embarcações fluviais portuguesas.
Porém, o rabelo, dentre todos toma um lugar de primacial destaque, não só pela sua constituição própria, como também pelo seu papel, dentro da região onde presta revelantíssimos e únicos serviços.
É inconfundível o seu porte especial, respirando antanho, altivo de linhas, que mais não esquecem a quem alguma vez o veja subindo ou descendo o rio, de vela panda, larga e quadrangular.

 

Pelo seu recorte impecável e bárbaro, pela altaneira supremacia que tem sobre as águas do rio, que, deixando de o trazer em sua veia, segundo a sua ingenuidade popular, o espalhou a mãos cheias pelas vertentes milagrosas e ásperas das suas margens, é verdadeiramente um barco senhorial, digno de reis, que já em épocas desfeitas, possivelmente serviu.
Quem traz à sua guarda, cautelosamente acomodado em si, o vinho do Douro, o rei dos vinhos generosos, o oiro líquido que certamente foi o néctar usado no Olimpo, e o segredo com que Noé teria perdido a serenidade... é, indubitavelmente, um bergantim real!
O rabelo, colaborador da prosperidade duriense, é o brasão de armas da região, escreveu alguém, e com acerto. Mas, se então foi dito, em sentido metafórico, pode hoje afirmar-se, de facto, que é assim.
A vila de Peso da Régua, a mais importante população da região vinhateira que o Douro banha em seu curso, tem como símbolo de autonomia municipal um barco rabelo de negro, vogante de prata num ondado de prata azul, acompanhado em chefe de dois cachos de uvas de púrpura, folhados de oiro, sendo todo o conjunto assente num campo de verde.
Pela sua origem, pelos seus serviços, pela sua imprescindibilidade, não podia deixar de vir a tornar-se um símbolo heráldico, bem honroso e bem inconfundível, de uma região única no mundo.

 

São os rabelos construídos pelos próprios marinheiros, em qualquer local das margens, no surgidoiro ou portelo que lhes fica mais à mão e que seja perto do fornecedor da madeira.
Há alguns pontos, porém, onde mais vulgarmente se armam os estaleiros, por causa da vizinhança de carpinteiros que lhes vão dar sua ajuda. Alguns desse lugares mais importantes são Castelo de Paiva e Vimieiro, no concelho de Marco de Canaveses, Porto Antigo, Barqueiros, Entre-os Rios e Bitetos.
E, assim, de mãos tão rudes, com técnica tão primitiva, utilizando produtos da terra, materiais bem humildes (o pinho, o castanho e o linho), sai

 

um conjunto tão sóbrio na sua equilibrada concepção, imponente de aspecto, altivo de porte, verdadeira embaixada de uma grande época já distante. Construído o rabelo - o que não leva muito tempo, pois um barco que possa carregar cinquenta pipas, em dois meses está no rio - é lançado à água, e dela só é retirado, um dia, se é necessário reparar qualquer rombo ou meter-lhe alguma estôpa.
De resto, anda sempre, rio abaixo, rio acima, até se desfazer na passagem infeliz de algum ponto, ou então, se não tem essa fraca sorte, é abandonado nalgum recanto das margens onde fica a desfazer-se ao tempo implacável. A estas carcassas perdidas, que por vezes se encontram, aqui e além, dão os marinheiros e a gente da região o nome de mortos! A descida do rio tem a dificultá-la a carga do barco; a subida o vencer a corrente. O vento ajuda só na torna-viagem; na vinda, só muito raramente ele aparece com oportunidade, e, quando assim é, só de Castelo de Paiva para baixo.

 

Quando não utilizam a vela, desmontam o mastro, que fica situado a um terço da pôpa, deitam-no, tal qual faziam os vikings, juntamente com a vara de verga, no sentido da proa, sobre as apegadas, se o barco vai vazio. Se vai cheio, pendem aos bordados, de um lado o mastro, do outro a verga, e ficam flutuando na água.
Esta embarcação é de tonelagem variável. Hoje, os maiores barcos regulam carregar 45 a 50 pipas. Houve-os maiores, que comportavam 70, 80 e até 100 cascos, que andavam ao serviço da Companhia Velha; mas devido ao maior risco que apresentavam para navegar o Douro, uma prudente medida legislativa, de 1972, já citada, proibiu a construção de barcos de tais dimensões.
Havia os barcos maiores, chamados matrizes, e os menores, designados por trafegueiros, que também podiam receber o vinho a transportar, desde que fosse presente o feitor ou confidente.

 


Sobre o número de barcos que andavam no Douro, diz-nos o Padre Luís Cardoso, em 1751, que eram mais de cinquenta.
Os rabelos, ao contrário das outras embarcações fluviais conhecidas, trazem inscrito, interiormente e junto à proa, o número do registo da Direcção dos Serviços Hidráulicos e Eléctricos do Porto.
Na maioria dos casos os rabelos têm nomes que são pintados em caracteres rudes, do lado de fora dos bordados, com frequência a tinta de escrever ou equivalente.
Esses nomes são de natureza: "Vamos com Deus", "N.ªS.ª da Boa Viagem", "N.ªS.ª do Carmo", "N.ªS.ª da Cardia", etc.
A nomenclatura das diversas partes que compõe esta tão curiosa embarcação, bem como as designações que dão a diversos pertences e outras coisas, é bizarra, evocando locuções e modos de dizer já antigos.
Vejamos alguns exemplos:
- Adriça - Corda que passa por uma roldana presa ao mastro e com que se iça a vela.
- Apegadas - Castelo do Comando; ponte de arrais; caranguejola. - Arrais - Proprietário do barco.
- Bambinelas - "Blandinelas", como dizem os marinheiros, são cortinas que se prendem na parte posterior das apegadas.
- Batedouro - Pá de madeira, de uma só peça, usada para tirar a água do fundo barco, e que serve também para deitar a comida.
- Bicheiro - Croque; pau terminado por um gancho de ferro, para ajudar a manobra de atracar, ou para levar o barco à vara, em determinados casos.
- Volta - de - Estameira - Nó usado para dentro do barco, e que se vai prender aos ginga - mochos e à estameira.
Afastados á muito da sua actividade inicial os rabelos são hoje utilizados em regatas, passeios no rio e outras iniciativas que recordam os seus tempos de glória.

   

Trabalho realizado no Colégio Nossa Senhora da Bonança pelas alunas, com orientação do Prof. José Guerner.

   

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