 |
|
Porque é que os armazéns de Vinho do Porto se encontram em Gaia?Os argumentos de ontem são os de hoje, justificarem a existência, em Gaia, dos armazéns destinados à conservação e envelhecimento dos vinhos generosos do Douro. Aparte o primeiro, o dos impostos de «portagem», que por anacrónico desapareceu à um século já, todos os mais são, ainda agora, de atender. E, talvez mesmo, ouse-se dizê-lo, com redobrada razão: porque o tipo de vinhos que actualmente se exportam é de maior categoria, já com certa velhice, o que não sucedia então; e porque a defesa da marca PORTO, de renome mundial, mais do que nunca precisa de ser protegida com afinco. De facto, se para a conservação de vinhos novos se recomendava o clima da vertente norte-nordeste de Vila Nova de Gaia, abrigada, húmida e com oscilações de temperatura de baixa amplitude, que diremos hoje para vinhos que se destinam a ser conservados, anos e anos, em pipas de madeira porosa, onde o envelhecimento se deverá fazer lentamente, em ambiente climático ameno, sem mudanças bruscas de temperatura e de humidade? Repare-se em como diferem os vinhos quando envelhecidos no Douro nomeadamente nas «Quintas», de armazéns mais expostos ao calor ardente do Verão: dizem, os entendedores, que eles adquirem o sabor conhecido por «queimado do Douro». Em Gaia, porém, o envelhecimento, embora mais vagaroso, dá aos vinhos uma prova mais macia; é, por isso, mais perfeito, mais recomendável, em suma. Quanto a desfalques, se os antigos já neles atentavam, com mais forte razão não os devemos esquecer agora, porque maiores serão os prejuízos que causam com o aumento de tempo de estágio, e consequentemente sobre-valia, dos vinhos em armazém. Finalmente, a propósito das medidas defensoras da marca, lembremo-nos apenas do alto conceito em que é tido o Vinho do Porto; e de que só se imita o que é bom... Já alguém disse: a fraude é o melhor preito prestado à genuinidade do produto. Sendo ela tão tentadora, não são demais todas as medidas que se tomem para a combater. Assim vemos justificada a legislação vigente que voltou a fazer de Gaia o natural entreposto de conservação e envelhecimento de nosso vinho de eleição - O VINHO DO PORTO. Sucedeu, pois, com os vinhos de exportação, ou de embarque, que do Douro vinham nos típicos barcos rebelos, e que sempre se armazenaram em Gaia - a julgar pelas referencias que lhe são feitas e que encontramos a partir da época em que o comércio de extracção dos vinhos pela barra do Douro passou a ser de certa monta. É este o primeiro motivo, na ordem cronológica dos factos, da instalação em Vila Nova de Gaia dos armazéns de vinhos de embarque: o eximirem-se os negociantes ao pagamento de impostos, de entrada e de saída do Porto, para os vinhos que se destinavam à exportação. Anteriormente ao século XVII o nosso comércio de exportação de vinhos fazia-se, como é sabido, pelos portos do Norte, principalmente pelo de Viana, com vinhos minhotos, entre os quais se nomeavam os de Monção. Só em 1678 se regista o primeiro embarque de «Vinho do Porto», no montante de 408 pipas, feito pelos ingleses. É o inicio de uma nova era, que em breve se iria caracterizar pelo alargamento da cultura do vinho mas margens alcantiladas do Alto Douro e pela expansão do respectivo comércio de exportação de vinhos. Ao lado dos primeiros, outros armazéns de vinho se instalaram, assim, em Vila Nova de Gaia. Os próprios britânicos, que na cidade tinham, desde 1654, a sua «Feitoria», era em Gaia que guardavam os seus vinhos. Este aumento, notado no número de armazéns de vinhos instalados na margem esquerda do rio Douro, em frente à cidade, tinha plena justificação tecnológica, como hoje diríamos. Aqueles terrenos de encosta, eram abundantíssimos em minas de água. Abrigados dos ventos fortes da barra, desfrutavam de um clima ameno, mesmo fresco, sobre o húmido, particularmente favorável à conservação das vasilhas e dos vinhos que nela se continham. Os desfalques eram menores. Em frente à cidade, não estavam longe da vigilância dos comerciantes interessados. A sua localização, à margem do rio, com a praia que lhes facilitava desembarque das pipas vindas de cima-Douro ou o embarque daquelas destinadas a sair a barra, permitia uma reduzida despesa com os carretos. Outras tantas questões de ordem económica muito dignas, também, de consideração. Com tão numerosas, como valiosas, condições de superioridade, não admira que se multiplicassem ali os armazéns de vinhos, especialmente naquela prega da colina que vai da actual ponte D. Luís à Capelinha de Santo António do Vale da Piedade. Tal como hoje, era essa a zona mais abrigada dos ventos de mar e a mais abundante em água. Raros eram os armazéns, diz Manuel Rodrigues dos Santos, que não dispusessem de água de mina própria, pois só de fontes públicas se contavam 32, pois ele enumera, além de muitas minas de água particulares. Assim se compreende, que não só o tino administrativo dos comerciantes directamente interessados, mas o próprio conhecimento das coisas por parte da «Ilustríssima Junta» da célebre Companhia dos Vinhos, criada pelo Marquês de Pombal, levasse, uns e outros, a instalar em Gaia os armazéns. Primeiramente, os comerciantes, a partir da segunda metade do século XVII, muito provavelmente; mais tarde, a Companhia pombalina também, quando ali instalou o «depósito geral dos vinhos do Douro». As razões ou motivos apontados sobejamente explicam a escolha de Gaia como o local mais apropriado à instalação de armazéns de vinhos.
|