patus-esq patus-drt

Biclas e Canoas em Barcelinhos (6 imagens)
Data: August 2003
Texto: A. Augusto de Sousa
Fotos: Desconhecido

Estreia em Barcelinhos: "Boltei o Barco"

Por: A. Augusto de Sousa (augusto.sousa@fe.up.pt)

Pois foi, LITERALMENTE! O passeio era qualquer coisa como "Ir de Bicicleta e Voltar de Barco", mas eu resolvi fazer uma variante e "fui de bicicleta e... voltei o barco"! Mas vamos ao relato e a seu tempo se verá.

A Secção de BTT dos Amigos da Montanha/Associação de Montanhismo de Barcelinhos, em conjunto com a Associação Rio Neiva/Associação de Defesa do Ambiente, organizou, no passado Sábado, dia 2 de Agosto de 2003, um passeio que designou por "Ir de Bicicleta e vir de Barco". Com início em Esposende e tal como o nome deixa perceber, tratou-se de um passeio que envolvia um percurso em BTT e que possibilitava, a quem o desejasse, o regresso em canoa, ao longo do rio Cávado.

Chegámos ao local de partida, eu e o meu companheiro de viagem, Jorge Ximbra, bastante cedo, ainda não havia mesa de registo montada. Deu para cumprimentar alguns amigos que, entre os cerca de 100 inscritos, sempre dá para reencontrar, em resultado de outros passeios já passados.

Como de costume, à medida que iam chegando, os vários participantes iam fazendo as últimas afinações nas suas máquinas. Via-se de tudo: bicicletas novas, velhas, de marca, rafeiras, estimadas, ferrugentas, enfim, numa panóplia de cores e feitios que sempre alegram o ambiente. Dos participantes, a variedade também era grande, quer nos equipamentos vestidos, quer mesmo e, como mais tarde se veria, na preparação física e técnica.

Aberta a mesa de registo, ali me dirigi e fiquei aguardando a minha vez, na extremidade de uma longa fila. Ali me foi entregue a primeira surpresa: recebi como número de identificação, imagine-se, o 001! Olha eu, que nunca fui primeiro em nada (ok, ok, podemos, eventualmente, fazer uma excepção aos empenos...) tive como brinde aquele espectacular número! Bom agoiro, penso eu, isto vai ser giro.

A saída fez-se ao longo da marginal de Esposende, em direcção a Sul. Passada a ponte sobre o rio Cávado, uma viragem à esquerda levou-nos para uns caminhos muito agradáveis na marginal fluvial sul, onde se efectuou a primeira paragem para reagrupamento, devido a uma avaria. As paragens aliás seriam uma constante ao longo do percurso o que, sendo um pouco desagradável, é perfeitamente compreensível pela heterogeneidade do grupo.

O percurso seguido, com a maior parte em trilhos de terra, não desmereceu o passeio. Gostei especialmente de um troço cujo piso era pejado de pedras redondas, vulgarmente chamadas de seixos ou godos e que rolavam sob as rodas e dificultavam o avanço e o equilíbrio. Embora sem grandes dificuldades, lá iam aparecendo algumas subidas e descidas, a primeira destas com direito a pequeno susto ao ouvir um grito estridente de quem está a "tombar aflitivamente": brincadeira de "Guia-que-Grita", doravante alcunhado de "Garganta-Plena" e que, no caso, se divertia à grande e, afinal, nos divertia também a nós.

A primeira paragem para reforço alimentar deu-se numa pequena localidade de nome Santo Tirso, junto a uma piscina de formato circular muito interessante; tão interessante e atractiva que havia já propostas para a invenção de novas modalidades tais como o salto para água... de bicicleta. Não sei é se o proprietário estaria de acordo, que afinal aquilo, apesar da ostentação, era privado (esta foi, pelo menos, a informação que obtive)!

O reforço alimentar propriamente dito, distribuído a cada participante num saco de plástico individual, compunha-se de um frasco de sumo, uma garrafa de água, um pequeno bolo e uma peça de fruta. Como não tinha incluído na trouxa nada que se trincasse, além de uma ou duas barritas energéticas, este Bravu Patu começou a desconfiar que iria passar uma fome de Ratu. Pois, é que, pelo aspecto, isto poderia muito bem ser "a" alimentação do dia. Aguardemos, portanto...

O reinício deu-se com um conjunto de trilhos com terra e empedrado intercalados, nada de tecnicamente muito exigente, mas com alguns furos a acontecer. Finalmente... a lama! É, essa massa viscosa e suja que sempre me persegue para onde quer que eu vá! Aquilo não era uma poça, era um charco imenso e infecto, ou pelo menos assim parecia. E digo "parecia" porque eu não passei lá! A boa sorte iniciada com a recepção do número um continuava a acompanhar-me e, à aproximação do dito, dei com um grupo que fizera meia volta e desviava por mais firmes e limpos territórios, evitando uma sessão inesperada da modalidade BTL (sigla já conhecida e que significa Bicicleta de Toda a Lama)...

Mas, pasmai ó gentes! Quem pensais vós que era o líder desse grupo de "betinhos" com alergia a lama, quem era? Nem mais, "ele, lui-même, the great", o líder espiritual da modalidade BTL (ou pelo menos assim nos dá a entender nos passeios que nos propõe, quando nos obriga a prová-la, a lama), o Senhor Patu-mor Bravu, Paulo Rodrigues: "&%#&%$! Não, que a minha mãezinha bate-me se hoje eu chego a casa sujo, %$")*#>#", dizia-me ele com aquele sorriso maroto e falsamente inocente, intercalado pelo vernáculo que lhe é habitual.

Logo a seguir, paragem forçada; de acordo com as más línguas, paragem para a gozação! E era vê-los depois, aos outros, os infelizes, carregados de sujidade preta e malcheirosa... Quanto a mim, tentei passar despercebido que o remorso moía, mas sempre com a alegria de ter escapado a semelhante sujidade. Mais à frente, numa pequena localidade por onde passámos, uma fonte pública permitiria a limpeza de tudo, máquinas e pessoas (bem, tudo não seria, que aquilo tinha sido lama até às "peças" mais íntimas...) e o assunto esqueceu-se.

E a tão anunciada, senão mesmo temida subida para a Ermida da Franqueira? Como é que foi? Penso que a divisão do grupo proposta pela organização não deu grande resultado, isto é, todos ou quase todos se sentiram com "pernas" para esta aventura. Aquilo era um engarrafamento pegado, encosta acima, declive acentuado e muito técnico, agravado pela pedra solta, com muita gente a não conseguir controlar as biclas e, obviamente, a optar pelo pedestre "empurr'arriba", ainda que tal não seja, necessariamente, sinónimo de renúncia ao esforço. Mais um reagrupamento ocorreu no final deste troço, ao qual se seguiu uma parte final, já em alcatrão, até ao alto da Ermida.

A descida foi um tanto mais conturbada, a começar pelos guias que não conheciam o percurso de saída dali. Foi necessária a sábia intervenção do guia-chefe para apontar o caminho: "por aqui, mas cuidado, que é descida perigosa". Tinha realmente razão, havia umas irregularidades no terreno, drops, valas, etc., que tornavam a parte inicial da descida um tanto perigosa, mas a parte restante foi mesmo muito... gritante! É o adjectivo que me ocorre quando me recordo do tal Garganta-Plena, o guia-que-gritaaaaaaava por ali abaixo como se ele próprio fosse a roda da sua bicicleta!

O resto foi mais pacífico. Passagem por um troço dos célebres Caminhos de Santiago, com as míticas setinhas amarelas a chamar por nós e a entrada triunfal em Barcelinhos, com passagem em frente à sede da associação organizadora do passeio. Triunfal, menos para o "Meu Amigo Nito", cuja pedalação terminara por avaria do desviador traseiro. À falta de solução mecânica para o problema, lá demos nós uma ajudinha até à descida final e pronto, junto à ponte medieval de Barcelos, estávamos no areal da praia fluvial de Barcelinhos, onde havia quase que um arraial.

Aproveitemos esta pausa para falar da organização. Na minha (ainda curta) vivência velocipédica em passeios organizados, penso que nunca tinha conhecido tanto e tão bom trabalho organizativo. Ele era Ambulância da Cruz Vermelha, jipe de apoio e carrinhas de transporte, para já não falar das tão esperadas canoas. Nunca faltou a água e, a propósito, o saquinho de plástico atrás mencionado era mesmo e somente um "pequeno" reforço alimentar...

Realmente, no ambiente festivo do areal a que chegáramos, não faltavam o grelhador das febras, chouriça e "barrigas", nem tão pouco a barraca das bebidas com águas, sumos, cervejas, energizantes e até vinhos, brancos e tintos da região, servidos bem geladinhos como as gargantas pediam. Tudo à discrição, que a fome criada por quase trinta quilómetros de BTT havia que ser saciada e havia quem realmente comesse... e bebesse! Imagino mesmo o que terá bebido aquele participante que, ainda no percurso e sempre que uma paragem o permitia, se dirigia aos habitantes com um "não se arranja aí um copinho, branco ou tinto, tanto faz?".

Enfim, uma organização com mãos largas mas com muita competência que haveria ainda de se provar, mais uma vez, na forma como preparou e enfrentou a onda de recém canoístas, ali mesmo e rio abaixo, com a disponibilização de um monitor especializado e de um barco vassoura. A César o que é de César, são justas estas palavras e que sirvam de incentivo a quem tão bem mostrou que sabe trabalhar.

Acho que quase todos os participantes (terão mesmo sido todos?) optaram pelo regresso a Esposende pela via fluvial. Uma carrinha da organização tratou de transportar as bicicletas e os seus donos foram em molho experimentar as máquinas novas, de plástico forte e inafundáveis, não fosse o diabo tecê-las...

Como preparação para a segunda parte do passeio, canoas na água, era agora vê-los desnorteados, tipo barata tonta, "não é p´ra aí, é p'ró outro lado, catrapum, vira, vira, vira..., catrapum, catrapum, olha outro deste lado, catrapum, etc... etc... e muitos catrapuns" de canoas chocando umas com as outras. Aquele rio mais parecia uma "pista de carrinhos de choque" daquelas que tipicamente povoam as nossas festas e arraiais, dizia o meu companheiro Jorge Ximbra com certeira razão.

Chegada a hora, haveria de iniciar-se a viagem de regresso a Esposende e houve lugar a um briefing e a algumas instruções por parte do tal monitor. Haveria que seguir atrás dele (como se isso fosse necessário ser dito) e ter cuidados nas segunda e terceira quedas de água que haveríamos de passar, sendo que a primeira teria de ser feita à mão, que o desnível impossibilitava o seu vencimento pela via aquática.

E lá partimos todos em direcção a Esposende. "Oh que $%#&/€, é p'ra Esposende, é ao contrário!"

Devo dizer que nunca esperei que conduzir uma canoa pudesse ser tão ridiculamente difícil! Tal qual os ponteiros de um relógio, aquilo começava a rodopiar em torno do seu eixo central que era um nunca mais acaba. Mantê-la a navegar a "direito"? Vai no Batalha! Vira à direita... À DIREITA... À DIREEEEEIIIITA... Chegou até a comprovar-se que, em canoagem, também se pode ir aos verdes, que é como quem diz, entrar pelos arbustos adentro, daqueles que é costume existir nas margens dos rios, mesmo naqueles rios que são largos como uma pista de aviação...

Quanto a este vosso relator e respectivo companheiro, soi dizer-se que havia desculpa, sim senhor. É que aquele barco tem mesmo aquele tipo de comportamento, dizia-nos o monitor. "Azar, tinha logo que nos calhar este", dizia desiludido o Jorge Ximbra!

Mas mesmo assim, ainda fizemos um figurão, na terceira queda de água, em que a corrente era forte e mesmo com alguma ondulação. A modos que comparando com o BTT, aquilo até parecia a descida anterior feita na Franqueira. O ego saiu bastante enaltecido pelo feito.

Ao fim de vários quilómetros, já nos saíamos mais ou menos bem no controlo do barco, mas o esforço dispendido acusava já alguns efeitos e a posição nada confortável (falta de hábito, será concerteza) das pernas e costas era para mim o pior de tudo. Olhámos o barco a motor, mais conhecido por barco vassoura e... tirámos bilhete.

Note-se no entanto que a abertura oficial da "bilheteira" já tinha ocorrido há muito, o que para nós foi mesmo motivo de orgulho... Realmente, o barco a motor servia já de reboque a um número significativo de canoas, amarradas com corda ou simplesmente puxadas à mão. Digamos que foi uma aquisição colectiva de bilhetes tão grande, que a bilheteira... esgotou.

Vou contar um segredo (se calhar vai-me custar mais uma visita aos verdes...): uma das canoas rebocadas era de alguém conhecido... É, um dos primeiros bilhetes foi adequadamente adquirido por alguém importante, oriundo do célebre grupo Patus Bravus, ou seja, nem mais nem menos do que o casalinho Patu-mor que já lá ia quando cheguei. Estendidinhos e de barriga para o ar, iam com sorrisos de orelha a orelha, a apanhar o solzinho agradável do dia. Aquilo não era um bilhete, era um autêntico poster.

Também com grande empeno mas resistente até ao fim, vi muita gente conhecida que, por esse motivo, merece elogio. O José Nãocotina, que fez a viagem a solo, o Nito e o Alex, o Sérgio Neves e a namorada, o João Vianense e a esposa (sexo fraco, dizem? Hummm...) enfim, num conjunto bem vasto de valentes que resistiram e conseguiram provar que a água é mole e que a mente é dura!

Mas este relato iniciou-se com um "Birei o Barco"! Vamos à história.

Por duas ou três vezes que embarcações a motor, passando nas águas calmas do rio, deixavam uma esteira com alguma ondulação; houve mesmo uma mota aquática cujo condutor entendeu brindar-nos propositadamente com um charco de água. Nada de especial, as canoas apresentavam uma estabilidade mais que suficiente e, exceptuando os insultos do costume, nada aconteceu que mereça nota.

No entanto, num momento de desatenção ou algo que eu não identifiquei claramente, a minha canoa afocinhou e a proa vai de começar a oscilar na vertical. Aquilo parecia um maremoto. Meia dúzia de solavancos, a canoa inclina-se para a esquerda... Aaaaaaaaaa...... "shloap", lá fomos nós, água adentro, com mochila, camelback, colete salva vidas, boné, sapatilhas de BTT e tudo o mais que transportávamos connosco.

Fomos os bobos da corte mas a coisa estava mesmo para isso. É que, com a soleima que estava, eu já vinha comentando com o Jorge Ximbra que não seria nada mau dar um mergulhozito! Veio mesmo a calhar, assim até tive desculpa para a molha em águas que, não sendo muito sujas, também não eram nenhum modelo de limpeza...

E assim ficou para os anais da história que, para mim e para o Jorge Ximbra, o nome do passeio passou a ser "Fui de Bicicleta e voltei 'o' Barco". E atenção que foi grande feito, que aquelas canoas são feitas para não se virarem nem com maremotos (dir-se-á riomotos? ou fluvimotos?).

Terminado o percurso fluvial, foi tempo de retirar a canoa de dentro da água e de fazer o restante percurso, até ao ponto de partida, em cima das biclas. Para o Nito, o tal que é "Meu Amigo" e que como foi dito, estava sem equipamento de tracção, fizemos um grupinho de empurras e lá o conseguimos levar até ao carro.

Pronto, espero que estas pobres linhas relatem bem o ambiente que se viveu neste passeio alegre e tão agradável. Talvez alguns se revejam na história e outros se roam de inveja, por não terem lá estado... Para estes últimos, deixem lá, pode ser que Os Amigos da Montanha, de Barcelinhos, voltem a organizar este "espectáculo".

Adeus e, como de costume, "até ao próximo empeno", mas de BTT!!!