Aniversário
T&N: Single tracks quanto baste
Texto
e Fotos de A. Augusto de Sousa
Descarregadas as montadas, cumprimentos e parabéns dados, últimos retoques organizativos por parte do Vítor Tools, organizador sempre preocupado, e vai a fotografia de grupo feita antes da saída derradeira, não vá o esquecimento ganhar a melhor e apagar das memórias tal momento. Alguns faltaram a este procedimento já usual, a favor de uns cafezitos ou, quiçá, outros líquidos dotados de mais calorias que o frio exigia. A propósito... S. Pedro, afinal, só quis mesmo ameaçar o grupo mas não deu mais água do que a pouca que caíra durante a noite fria e que terá sido, em outros locais, alva neve.
A saída fez-se em dois grupos distintos, dando-se prioridade aos que eram "puxados" pelo tal aparelhinho de gê-pê-òs-esses e que partiram em grande velocidade, com medo de que o bolo não chegasse para todos. Desses, não haveria mais notícias, mas os outros seguiriam em grupo maior (não muito íntegro, como se veria mais tarde...) e com andamento mais suave.
Com cães de alto teor decibélico a ameaçar, o grupo embrenhava-se então pelos primeiros trilhos em magnífico single track, por entre o arvoredo frondoso. O caminho, se o havia, estava mal visível pela folhagem espessa e castanha e as primeiras desorientações aconteciam. Por um lado, o grupo, já um tanto espartilhado, hesitava aqui e ali sobre os trilhos a seguir; por outro lado, havia já quem concluísse que, afinal, "aqueles caminhos não correspondiam ao seu BTT (?) usual da marginal marítima", resolvendo-se por uma desistência algo prematura. Chegavam também algumas, poucas, avarias, do tipo furos e correntes partidas, e tornou-se necessário, um pouco além, após a travessia de uma estrada de alcatrão, parar uns bem largos minutos para reagrupar.
E que bem que soube para alguns, que aproveitaram para fazer algumas exibições de saltos, cavalos, descidas radicais improvisadas em montes de terra e pedra e outros acepipes das artes de bem pedalar!
Retomado o percurso, viam-se já algumas caras menos frescas, fruto dos últimos metros feitos em subidita não muito acentuada mas algo pesada... No entanto, o pior viria ainda, em boa parede daquelas de partir pelotões... Nestas ocasiões, já se conhece o efeito, ouvem-se os "sai da frente", ou os "agora não, não pares agora... ohohohoh", e até mesmo os "oh meu &$#%?, tinhas de ser tu a estorvar, &#$&)/&"... Juntam-se todos ao molho, não sobra espaço para ninguém e vai toda a gente com os pés para o chão... e a bicla à mão; "&%#%$#/, se não fosses tu, eu subia esta &%#&%"...
Os trilhos seguiam-se interessantes, na sua maioria estreitos, com uma ou outra descida, mais uma ou outra subida, um algum troço de estrada para desenjoar... em alguns locais a passagem pedestre era necessária pela impossibilidade de vencer os obstáculos, no meio de arbustos, silvedos e paus do mais agreste que se possa esperar, mas compensavam-se os ânimos com descidas rápidas, com curvas acentuadas e até em gancho, onde a habilidade individual emergia. Curioso... certo casalinho, muito conhecido, andava sempre junto nas subidas... consta-se que o elemento feminino se sentia na obrigação de dar um empurraõzinho, de forma a disfarçar o bilhete masculino! É, o empeno era grande... no corpo e até na bicla! O quadro acusava grande cansaço, de tão torto que estava, e as rodas eram... de madeira (?), em forma de sinal de soma...
Regressemos... Passar-se-ia então pela quinta dos "mil caninos", em local rural à moda antiga e, após um belo trilho, ladeado por montes e muros, bem à moda do Norte, parava-se para o reagrupamento, imediatamente seguido de nova paragem para o Vítor substituir a câmara de trás do seu TracTools que, por muito camarada que seja, não resiste a uma boa pancadinha numa lâmina de granito. Aproveite-se e faça-se mais uma single speed, sugere-se? Não, nem tal operação seria jamais possível (malgrado a grande vontade do cirurgião presente...). É que, o coitado do TracTools já fora, à nascença, castrado do seu desviador, como é sabido no milieu! Cruel destino o seu...
Uma passagem por arcos de belo aqueduto anunciava agora a aproximação a Vairão, com o seu imponente mosteiro, local onde a (curta) paragem para reforço alimentar seria forçosa. Com uns belos relvados à vista e uns declives a acenar, por ali se recarregaram muitas baterias e se descarregaram energias em demonstrações de domínio da máquina de várias e atrevidas formas. A culminar, a descida dos vários lanços da escadaria conducente ao mosteiro, feita com gritos de satisfação e de... um tombo, felizmente sem consequências, a menos da impossibilidade do fotógrafo de serviço o gravar para a posteridade! Nã...aqui para nós que ninguém nos ouve, foi o próprio, o autor da proeza, que se deu previamente ao trabalho de ali colocar aquele automóvel, cuja traseira lhe ampararia a queda, o que sempre lhe saberia melhor do que a dureza do granítico chão de paralelepípedos....
Foi então a vez do trilho "olh'ó'buraco!". Outrora infestado de abelhas guerreiras e mal humoradas (segundo informação fidedigna, oriunda do Tools), estende-se entre altos muros, com piso coberto de erva que oculta aqui e ali uns buracos traiçoeiros, grandes o suficiente para causarem estragos. Gritava-se à vez o respectivo aviso e, no caso mais grave, o amigo Jorge Ximbra Antunes, qual polícia de momento, atravessava a sua FS (à qual só faltava, sem dúvida, a luzinha azul a piscar) no caminho, de forma a impedir acidentes.
Seguir-se-ia um belo monte, agreste e pleno de paus e pedras quanto baste, a dar trabalho aos limpa-desviadores e, após a travessia da estrada principal e a passagem pelo Centro de Investigação Veterinária, apareciam belas e (pouco) lamacentas descidas onde os mais rápidos deram azo aos seus instintos mais adrenalínicos. Mais à frente, um túnel sob o IC1 daria acesso à zona Industrial de Mindelo/Vila do Conde, ora transformado numa completa China Town, e à grande empresa de electrónica Infinion (passe a publicidade), com o seu ar arquitectónico misterioso, à face da Estrada Nacional Nº 13.
O regresso aos trilhos levaria o grupo para uns caminhos de areia: à falta de lama... nada melhor para fazer os presentes escorregar de lado e enterrar as rodas! Aquilo foi um ver se te avias a colocar os pezinhos no chão, que a roda da frente já não estava para aí virada! Aliás, não estava virada, nem para aí, nem para ali, nem para acolá; emancipara-se e não obedecia a ordens de dono algum, por mais sério e autoritário que este fosse, e ponto final.
Mais quilómetro, menos metro, com passagem pelo centro do Mindelo, lá chegávamos, por entre moradias de desafogados fim-de-semana, ao tão esperado Bar Yate e, por conseguinte, ao não menos desejado bolo de aniversário. Perdão, repórter que se preze orienta-se pelo rigor e há que dizer que o bolo não era um mas sim... três! Isso, nada mais, nada menos do que um trio, por acaso muito saboroso, para reconforto dos muitos estômagos descompostos.
Por falar em descompostos... os amigos do primeiro grupo, os tais que foram puxados pelos gê-pê-òs-esses, lá estavam a descansar do esforço da viagem acelerada. E, pelos, vistos, tiveram muuuuito para descansar, resfriar e cismar no "bem feito" que foi apanharem aquele tempo de espera.
A etapa que se seguiu, a da confraternização, foi especial. Além da operação de degustação dos magníficos doces, houve lugar a cantoria, pelo muito (des)afinado coro, de parabéns aos dois aniversariantes, com um aclamado "ao Toooools e ao Biiiicooootiiiiina, uma saaaalvaaaa de paaaalmas", cantoria essa que não ficaria por aqui!
Pois o amigo Vitor fez questão de ali mesmo, e sem acompanhamento de músicos ou de playback, presentear os presentes com uma simpática apresentação da sua última produção discográfica, "O Karaoke do Tools". Foi um remédio santo... a audiência baixou de imediato os números para metade e os corajosos ficantes correram ao balcão a pedir raminhos de salsa ou bocadinhos de queijo para tapar, ou pelo menos proteger, os seus prezados ouvidos. Qual Zé Cabra ou pior Assurancetourix, aquela garganta debitava, em vez de musicais notas, chocalhantes moedas ou pior, estridentes latas... É que nem a oportuna e afinada (?) ajuda de amarelo pato fantoche, manipulado por mão amiga, conseguia com o seu quá quá quá disfarçar a horrenda onda sonora! Mas valeu bem a tortura dos amigos: o Vítor apresentava, no final, uma expressão de imensa felicidade...
Quem não desafinava mesmo era a passarada que cá fora esvoaçava e que assim aliviava os massacrados ouvidos dos presentes ao retomarem o caminho, agora de regresso. Umas passagens em arruamentos e passagens pedestres por entre moradias, mais uns trilhos cheios de paus que teimosamente continuavam a enfiar-se em tudo quanto era peça móvel das bicicletas, umas fugas pela "lateral ao trilho", a evitar a lama afinal inexistente e... foi precisamente numa destas fugas que se fez mais história.
Então não é que a cachopa do Zé Bicotina decide atirar-se ao primeiro miúdo que lhe aparece? Coitado do Zé, não merecia, ainda para mais no passeio em que se comemorava o seu aniversário... Mas eu explico. Numa passagem com direito a descida íngreme, loooonga de p'raí um metro, após subidinha com a qual perfaz uma vincada lomba, difícil de negociar q.b. (aliás, como este humilde repórter tivera ocasião de comprovar uma semana antes...), a Nandinha Pendura não segura a máquina, esta foge-lhe com a roda da frente que se atravessa no caminho e... sai um voo que nem águia, direitinha para os braços do rapazinho de casaco vermelho que no momento ali passava... Ficou toda a gente a olhar, estupefacta, para a cena que, de todo, era imprevisível! Quem diria...tsss, tsss...
Mas o fim do passeio já dava sinais de aparecimento... os últimos quilómetros, feitos pelas bermas do IC1 e da futura linha do metro e ainda por mais uns trilhos de monte bem agradáveis, lá nos conduziriam novamente a Vilar do Pinheiro, ao mesmo local de partida. Estava consumado o acto e dava-se início ao arrumar das tralhas que o "arroz de marisco já esperava" (os merecidos créditos ao autor da frase).
Sem ninguém que se fizesse aos banhos, para desgosto do Vítor e do "Sr. Prederesidente da Junta", o pessoal participante lá foi carregando as biclas nas respectivas tuperwares motorizadas e, com beijos, cumprimentos e abraços, lá se foi despedindo e... vazando para suas casas.
À laia de conclusão, soi dizer-se que foi um passeio "à Patus Bravus", a matar saudades de outros tempos, não muito distantes. Pouco pesado e sem lama (ufa, diz o Tools), mas não completamente isento de dificuldades, sempre foi deixando algumas marcas a alguns que já não se lembravam de outro assim. Algumas subidas, poucas; outras tantas descidas, não demasiado técnicas; muitos paus, varetas e troncos, mas sem graves avarias; e muita, muita alegria e dois tombos, ambos sem consequências; este é o saldo de mais um Passeio de Aniversário do Tools e Nicotina (ou será Bic..).
E agora que preguei, provavelmente, o mais sério empeno de todo o passeio, na forma deste singelo relato, resta-me despedir com o habitual...
"Adeus e até
ao próximo empeno."