Ori-BTT Amigos da Montanha de
Barcelinhos
Texto e fotos: A. Augusto de Sousa
Orientação? Xiiii... Fiz isso no serviço militar em Santarém, tanto tempo que já lá vai! Mas nessa altura havia o Quintanilha (quem sabe se verá estas linhas) que tomava conta dos apetrechos e lá nos levava a todos pelos caminhos mais certos. Como seria fazê-lo agora, sozinho e em cima de duas rodas?
Aceitei o desafio proposto pelos Amigos da Montanha de Barcelinhos e, juntamente com uns quantos amigos, lá fui até ao Monte do Facho, Capela de S. Lourenço da Alheira, na manhã de 13 de Março último (2005). Ali encontraria muitos outros que, como eu, "procuravam uma orientação".
Vários tinham já efectuado o registo respectivo e estudavam atentamente as marcações efectuadas sobre o mapa que lhes fora distribuído. Campeões da coisa, digo eu, provavelmente temiam que a prova fosse "tão labiríntica como os acessos ao local"... Realmente, este só foi atingido graças aos papelinhos que a organização sabiamente colocou nos principais cruzamentos, desde as imediações de Barcelos...
Distribuídos todos os mapas, bússolas e cartões de controlo, lá começaram os participantes, na conta de sessenta, a fazer-se aos trilhos. Haveriam de fazer um percurso com oito balizas, sabiamente localizadas em pontos assinalados nos mapas, de forma visível... mas não muito; principalmente para aqueles que à voz do "senhor do megafone" se faziam ao caminho em fortes pedaladas como se disso dependesse o seu almoço de todos os dias da semana próxima... para logo pararem, no primeiro cruzamento, à vista de todos, sem saberem para onde seguir: "Oh meu, não é por esse lado, a estrada é aquela..."
Confesso que o percurso me pareceu simples, bem a propósito de quem pretende divulgar a modalidade por entre os conformados, senão mesmo comodistas usadores de guias, fitas plásticas e sofisticados Gê-Pê-ós-Esses. A primeira baliza, então, estava fácil de encontrar, embora necessitasse de um esforço extra para vencer os metros ascendentes de terra seca e escavada e que daria, depois do "pico no cartão", uma descida "à maneira".
Por falar em pico, talvez o leitor não conheça as regras? Pois eu resumo: cada participante (em regime individual) possui uma bússola e um mapa sobre o qual se encontram marcadas as posições das balizas. O percurso é livre e definido por si próprio, mas tem como obrigação passar em todas as balizas assinaladas, nas quais marcará o seu cartão com um instrumento próprio ali existente, que identifica a baliza respectiva. No final, é contabilizado o tempo de prova e verificado o cartão de cada participante como prova de que passou todos os pontos de controlo.
Se na primeira baliza quase tropeçavam os participantes mais distraídos, já a segunda estava recolhida por trás de uma autêntica ratoeira de orientação. Os mapas, bastante desactualizados, não mostravam as novas vias ali existentes, nomeadamente a larga autoestrada A3 e uma outra via secundária alcatroada que, imagine-se "a coincidência", era paralela e muito próxima do trilho onde haveria de se picar o bendito cartão. Por ali andámos, muitos, procurando pela "agulha" que afinal, concluiríamos, estava "noutro palheiro"...
Depois havia um corta fogo ascendente com muita pedra solta à mistura que começava a demolir alguns. Lá no alto, sem jogos de esconde-esconde, a terceira baliza aguardava e deixava que se seguisse para a outra vertente do monte... a descer, claro, e de que forma! Havia quem, por segurança ou menor capacidade técnica, descesse a pé mas, dos restantes, ouviam-se os gritos de prazer "adrenalínico" decorrentes da vencida de mais uma pedra, mais um drop, mais um buraco...
E o mapa rezava: "a direito, segundo uma linha recta, até uma ponte"! E não é que o caminho, na continuação do corta fogo, até lhe dava razão? Mas então qual é a explicação para a procura de outros percursos, alternativos, por "aquela" estrada alcatroada, saliente-se, transversal? É como diz um amigo de longa data: "se se pode fazer complicado, porque é que se há-de fazer simples?" E assim lá se foram perdendo uns bons e preciosos minutos...
Da baliza na tal ponte à seguinte, que seria a quinta, o caminho foi rápido e fácil por um carreiro sem grandes desníveis; aliás, bem de acordo com a célebre frase do dia: "em orientação não se sobe muito; é preciso é contornar os montes..."
Permita o caro leitor um desabafo a propósito... a teoria até que nem era má! Soava bem ao ouvido e, mesmo sem postulados nem provas especiais, até os menos literatos a aceitariam, nomeadamente este humilde relator de ocasião! Tudo o que dê, à roda da frente, altimetria inferior, é melhor caminho e, assim sendo, aí vamos nós a contornar o monte por estrada, sempre a descer, até atingirmos o alto (?) do mesmo, onde se encontra a baliza número seis.
"Oh minha senhora, Mota é aqui?" Impressionada por tal pergunta, talvez por ser vinda de uma bicicleta, a senhora, atrapalhada, arranhou simplesmente um "não sei, a gente está por cá há pouco tempo!" Mas de acordo com o mapa, a configuração do local dava instruções claras: virar à direita, para o trilho, porque a localidade com aquele nome, ou simplesmente lugar, já havia ficado para trás.
Virar à direita? Hoops! Abria-se assim a bilheteira e tiravam-se os primeiros papelinhos! Dali a um tempo já só se ouviam, à mistura com ofegantes respirações, as piores pragas a serem rogadas aos teóricos, doutores e outros senhores de frases feitas. A única teoria ora aceite seria a de Arquimedes, a tal da "impulsão de baixo para cima...", mas de oiro mesmo seriam as palavras do popular que informava ser "já ali acima, depois de entrarem na estrada que vem do outro lado".
Felizmente que, uma vez atingido um topo, a saída é inevitavelmente descendente (mau... já chega de teorias baratas!) e, uma vez marcado mais um pico no cartão, lá nos víamos a descer por um trilho bem técnico, já no sentido Sul-Norte, ou seja, em início de viagem de regresso. Oitocentos metros e um furo depois, a baliza sete aparecia e iniciava-se a subida final (já é mania, contrariarem os teóricos com tanto subimento numa prova de orientação...) para o nível do ponto de partida.
Haveria ainda de se passar num planalto onde se marcaria o ponto da baliza oitava e, por esta zona, a agitação era grande: muitos participantes, por coincidência engraçada, se juntavam por aqui e comentavam as suas (des)aventuras de busca por balizas ocultas. O grupo de bem dispostos aumentava assim pela colagem de um ou dois elementos extra, a quem as balizas anteriores ainda faltavam mas que... já não se dispunham a encontrar.
No local de meta, hora limite de chegada já passada, havia pouca gente. Alguns debandados, outros não chegados, bicicletas e apetrechos pelo chão, "podem alimentar-se do que ainda há, está na carrinha", lá se entregaram os apetrechos de orientação à organização. A cerimónia de entrega dos prémios aos primeiros classificados ocorrera já e os abraços de despedida urgiam, que o "arroz de marisco" esperava de rolo da massa na mão.
Cumprimentos especiais eram ainda devidos à organização, ali representada pelo senhor do megafone e outros Manuéis dos "Amigos da Montanha de Barcelinhos". Que excelente trabalho fizeram, ao preparar uma manhã Dominical de tanto divertimento! Obrigado a todos e... que continuem, futuro adentro, a fazer coisas tão boas como esta e muitas outras a que já nos habituaram.
Ah, no final, o meu ciclómetro marcava uns
parcos 13 Km! O relato
já vai maior...
Aqui fica um abraço de despedida e um... adeus e até ao
próximo empeno!
A. Augusto de Sousa (augusto.sousa@fe.up.pt)