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Descendo o Rio Leça, do Paraíso ao Inferno (70 imagens)
Data: Julho de 2007
Autor: A. Augusto de Sousa

 

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Pronto, cumpriu-se a promessa: acompanhar, desde a nascente até à foz, o curso do Rio Leça, esse produto nefasto de um progresso sem limites e que toma a forma de um "esgoto natural". Há muito prometido e ainda mais desejado, este passeio acabou por mostrar que, afinal, o "Rio Leça não nasce assim"... e que ainda pode ser salvo.

A iniciativa partiu dos LVP - Leais e Videirinhos de Pedrouços, associação da mesma freguesia do Concelho da Maia que muito tem feito pela cultura, pelo desporto e, neste particular, também pelo BTT. Realmente, o passeio constituiu simultaneamente uma espécie de evento de encerramento do Campeonato Interfreguesias de BTT do Concelho da Maia em que o clube participou com vários atletas e como um dos organizadores, juntamente com o Clube de BTT da Associação dos Dadores de Sangue da Maia. Ao Jorge Ximbra Antunes e ao Carlos Mapas Gomes coube o árduo trabalho de, com a carta militar na mão, pesquisar por soluções de percursos, ao longo de quase cinquenta quilómetros, sempre próximos do curso fluvial e, dentro dos possíveis, em trilhos de terra ou pedra. Desde já o meu aplauso para ambos.

De acordo como a convocatória, as hostes juntaram-se junto à Quinta da Conceição, em Leça da Palmeira. Foi o local julgado mais apropriado para a concentração, com a restrição de ser (muito) próximo da foz do Rio Leça, ponto obrigatório de chegada prevista para dali a umas horas. As amizades reviam-se, os abraços dos mais afastados surtiam ruídos fortes e sentidos de quebrar costelas, faziam-se as inscrições na mesa da organização, tiravam-se as rodas dianteiras que se transportavam à mão qual carteira de senhora, e exibiam-se, em autênticas passagens de modelos, as mais alvas "meias de exteriores"...

No meio do colorido das camisolas e calções, lá estavam um autocarro com os dizeres "Câmara Municipal da Maia" e um furgão de dimensões generosas, o primeiro para o transporte das pessoas e o segundo para o transporte das bicicletas, em direcção ao ponto de partida do passeio, a nascente do Rio Leça, no Concelho de Santo Tirso, Freguesia Monte Córdova, lugar de Redundo.

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Já no autocarro, a boa disposição reinava... afinal, as maiores subidas estavam a ser feitas "a motor"... e se o rio desce, por acção da tal lei da gravidade que não se emenda, o passeio não seria "climbante"! Rodas num canto, piadas a jorros, instruções do organizador-mor, as omnipresentes frases repletas de semântica do género %#&%/*#, há "Patus" a bordo, uma aparente cadeira de roda(s) e uma chegada apoteótica marcavam a viagem.

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Fazem-se as fotografias da praxe, nas quais se incluem as entidades oficiais, Presidente da Câmara Municipal da Maia Eng. Bragança Fernandes, Vereador do desporto, Dr. Nogueira dos Santos, assim como membros das Assembleias Municipais de Valongo e de Matosinhos. Visita-se o "buraco" onde o rio se dá à luz, "engenheiram-se" soluções para o travão da bicla do avô Machado Ximbra e, finalmente, as horas eram já demais, sai-se à estrada: "ate já, oh amigo Leça!"

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Adiante uns metros, vira-se à direita e aparecem os primeiros trilhos... descendentes, claro, como mandam as regras de bem seguir cursos fluviais. Não se sabe se é também parte das regras, mas os engarrafamentos, por estreitas que as passagens são, também fazem questão de aparecer e o repórter lá se vai anunciando em voz alta "esquerda, por favor... direita... comunicação social..." E vá lá a gente entender porquê: vinham todos depois, de frente para a câmara, de sorriso em vista!

Passava-se no café lá do sítio, sem parar... hum? Falta aqui alguém, falta qualquer coisa! Que é feito das meias? Aquelas brancas, próprias para exteriores? Café? Ah, pronto, está tudo na (a)normalidade usual. Venha o primeiro brinde da manhã, na forma de uma descida em single track técnico, pó quanto baste, até à estrada de alcatrão, lá em baixo.

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"Olh'o Leça" gritava-se dali a pouco ao atravessar o curso fluvial pela primeira vez. A ponte, se digna deste nome é, resume-se a um simples conjunto de lajes graníticas horizontais dispostas de margem a margem; o rio, ainda estreito, está ali mesmo à mão de quem procure frescura... ou será ao pé? "Tenho os pés a ferver..." olhos gulosos apontam o cristalino líquido e, se bem pensa melhor o faz, desce ao leito e aí vem ele de... alvas meias "ensopadas"...

Seguia-se agora por um trilho vincado com rodados laterais, húmidos, estreitos e profundos, que obrigavam a proceder pela zona central; mas a escolha nã..ããã..ããã..o ééé..ééé..ééé.. pa..aaa..aaa..cííí..ííí..ííí..fi..ca... Pedras irregulares, ocultas pela erva e pela lama dificultam o equilíbrio e o desejado avanço... há mesmo quem "prefira" um pequeno passeio pedestre.

Dali a pouco, uma primeira visão de paraíso: na Freguesia de Pereiras, o rio alarga um pouco, o arvoredo e o algo extenso relvado ajudam à vista, uns pilares e uma ponte em granito completam o ambiente. A luz filtrada pela verdura abundante ilumina as camisolas coloridas do grupo que assim passa a fazer, e bem, parte da paisagem. Ali ao lado, uma antiga serração movida pela força das águas apresenta uma estrutura recuperada à força de alguns euros mas, segundo consta, da "maquinaria" não se conhece o mesmo destino...

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"Mas então isso não anda?" Se lá atrás era um single track, agora justo seria chamar a este um half track... As silvas abundam de um lado e outro, já o vermelho risca os braços e as pernas, "é bom para a circulação", mas como se há-de avançar? A bem da boa verdade, a coisa não era fácil! Lá mais à frente, o trilho transforma-se em descida técnica, daquelas que rapidamente transformam um passear "de" bicla num simples e vergonhoso... passear "a" bicla... mas, há sempre quem o tente, adivinhe-se lá quem é que conseguiu descer aquela fase montado?

Mais abaixo o caminho transforma-se em escarpa, não há chão, somente pedras. A descida é negociada na vertical, por entre o silvedo que obriga a desviar as mãos de outros destinos mais nobres... como apoiarem-se no chão...

Se valeu a pena? É claro que valeu! Ao fim do monumental passeio, já os joelhos choravam, novo paraíso se abria. O rio, agora mais largo e belo, de águas claras como o cristal, expunha-se por entre o arvoredo e o granito aos olhos apreciadores do grupo... faltavam as palavras... "toca a atravessar, pessoal" era o Jorge Ximbra Antunes que, do alto da importância que o estatuto de organizador lhe conferia, puxava o grupo para a outra margem... e obrigava à pedalação submarina! A água subia quase ao nível superior das rodas e houve quem "fosse medir a profundidade... com os cotovelos".

Eis se não quando, logo que os mais friorentos atingem a outra margem por uma passagem equilibrista sobre um conjunto de pedregulhos, o Jorge Ximbra decidia que... afinal... o percurso era pela primeira margem! "O QUÊ? OUTRA VEZ?" regressavam os $%8\!*&0#6 e outras gentilezas não repetíveis, "VAIS PAGAR-MAS", mas lá foram todos retornando ao trilho firme da pedra que, adiante, tinha nova paragem para a devida apreciação da paisagem.

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Quedas de água de Fervença... pasmai, oh gentes... apreciai a beleza do local. Do alto da fraga, olhos esbugalhados, apreciava-se a água escorrendo, as rochas, a verdura; tudo é belo, até a espuma da água, que ali não é artificial. Na margem, no alto da massa pétrea sem muros, as máquinas digitais movimentam-se para um lado e para o outro, procurando os melhores ângulos; melhor assim, pois as palavras não chegam para uma descrição justa.

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Mas vejamos, não seria este o último dos locais idílicos. Um pouco depois, passado um maravilhoso trilho técnico, de pedra em pedra, que envergonhou mais uns quantos "caminhantes", e ainda uns metros de descida pela estrada, uma súbita viragem à esquerda completava a vista, agora de baixo para cima. Era o ponto terminal das mesmas quedas, muito verde e granito novamente em conluio, onde nem o pequeno areal ou o arco da velha ponte destoavam.

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A partir daqui, o percurso altera-se. Há menos trilhos, especialmente técnicos, o declive fica menos descendente, apresentando mesmo algumas subidas. A registar há um furo complicado, uma tentativa de atropelamento ciclista ao repórter que escapa milagrosamente com vida, e uns campos belíssimos de milho que, apesar do mesmo verde contrastam, pela planura, com os montes deixados para trás.

"Nascem" bicicletas em postes de electricidade nas paragens dos cafés, encontram-se descidas de grande velocidade e, lá ao fundo, apesar das altas temperaturas, encontra-se a velha mas, no dia, inesperada amiga "lama oh que linda lama, lama da trialeira". Escorrega de um lado, foge para o outro, mandam-se bocas ao "mergulhador" de serviço e lá se passa o local
com boa disposição.
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Apareceriam agora uma ou duas subidas sérias e uma passagem por propriedade privada (hoops!), uns caminhos tipicamente nortenhos, entre altas ramadas vínicas, mais um ou outro "olh'o Leça" em pontes mais ou menos antigas, à mistura com altos viadutos de autoestradas, umas passagens urbanas e, de repente...

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...em mais um "olh'o Leça", na travessia a vau de um curso que, não tendo já o cristal anterior, também não desmerecia, estava-se em S. Lázaro, o belo e singelo lugar da freguesia de Alfena, Concelho de Valongo, com o seu o relvado, a sua ponte medievel, os pretensos relógios de sol, os piqueniques, os corrimões de troncos de madeira, as mesas de granito... imagem a reter!

E o tempo, já se falou sobre o tempo que fazia? Mas quem é que ia dizer que o dia mais quente do ano até então estava guardado para ser aquele? Não é que o Sol estorve ou faça mossa, muito pelo contrário, que aviva as cores e dá brilho aos corações, mas aquele caloraço era mesmo necessário? O problema é que assim todo e qualquer pedaleiro, por mais empenado que a natureza o faça, já tinha desculpa: "é do calor...".

A chegada a S. Lázaro tinha sido à justa; mesmo com uma paragem no café anterior para a devida ingestão de "gasolina super", todos os participantes tinham já deixado o fornecedor de bilhetes com a caderneta vazia, e era só vê-los a banharem-se, literalmente, na pequena torneira da fonte de água local.

Mas se os males são grandes, há que arranjar grandes remédios e os Leais e Videirinhos de Pedrouços tinham previsto tudo: a tal mesa de granito estava repleta de bolos, água, sumos e fruta para os estômagos mais sofridos... meu dito meu feito, os sorrisos voltavam a apontar para as câmaras digitais...

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Dali em diante ainda se fizeram umas passagens urbanas e se percorreram uns belos trilhos no meio do milho verde, e que belas imagens deram. Pelo meio, a visão pontual das águas ia agora denunciando uma cada vez maior opacidade, denunciadora da poluição que se lhes reconhece. Os gritos de "olh'o Leça" iam perdendo a vivacidade e o volume...

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Atingia-se, já em meio urbano, o bonito Mosteiro de Leça do Balio e, se o mosteiro é bonito, mais ainda o eram as sombras e os relvados para biclas e para empen... participantes! Máquinas para um lado e homens para o outro, no aconchego do chão fresco e verde, lá se ia lastimando o empeno de cerca de quarenta quilómetros que o calor aprontara. O próprio repórter, diga-se, queixava-se já que a fotografadeira tinha aumentado de peso... razão pela qual, possivelmente, as fotografias do monumento... nem vê-las!

E com estes empenos e outras ofertas lá se foi chegando à Via Norte que seria cruzada por um túnel subterrâneo e estreito, a obrigar a autênticas habilidades de transporte de bicicletas a pé, escada abaixo, escada acima! Mais um "olh'o Leça" logo após, e a derradeira subida para o Araújo, onde o guia da segunda parte do percurso aguardava o grupo.

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"Hum? Segunda parte, disse ele? Não, vamos é já a direito em direcção à Quinta da Conceição, onde as nossas confortáveis latas de quatro rodas nos esperam." E assim se foi, pelas ruas "sem subidas, ouviste?", deixando o pobre Vitor Toos (a) Abrasar (os) Santos à beira de um autêntico ataque de nervos ao ver ir, borda fora, o trabalho todo que tinha tido a preparar um excelente percurso para o troço final... Desse sobraria, provavelmente, a passagem pela ciclovia da última Ponte sobre o Rio Leça que, aliás, ali se transforma em porto de mar de Leixões.

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Dos dois para os três pedais foi um ápice... e já ninguém se queixava da falta de força para lhes carregar... À pressa do regresso a casa juntava-se a pressa de estar à hora na sede do LVP para, em ambiente quasi Sanjoanino, não se perder pitada do magnífico churrasco que havia sido preparado...

Deixe-se que as imagens falem por si, pelo manjar, pelo convívio, pela alegria...

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...pelo espectáculo onde nem um hip-hop faltou, e pelas medalhas, entregues pela direcção aos representantes do clube no Campeonato Interfreguesias de BTT da Maia.

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"Do Paraíso ao Inferno" era o mote e que bem aplicado foi... o "Rio Leça não nasce assim" e assim se comprova o contraste, metro a metro, quilómetro a quilómetro, da pureza das águas, assim como da beleza da paisagem na sua origem, com o poluto líquido, infecto e tantas vezes mal-cheiroso que chega à sua foz.

Aos LVP - Leais e Videirinhos de Pedrouços, com especial atenção para o Jorge "Ximbra" Antunes e para o Carlos "Mapas" Gomes, vai um abraço colectivo de agradecimento pelo empenho que colocaram na organização do evento, escolha de traçado incluída, extensivo às cozinheiras e demais ajudantes que tão bem prepararam os acepipes de... "restabelecimento"!


O relato já vai longo... desculpem qualquer coisinha,
Adeus e até ao próximo empeno,

A. Augusto de Sousa

A. Augusto de Sousa