Manobrei... que me fartei!
Texto de A. Augusto de Sousa (augusto.sousa@fe.up.pt)

(Artigo publicado na Bike Sport Magazine, Nº 24, Janeiro de 2004)

Com o nome de código Manobras III, foi no passado dia 15 de Novembro, Sábado, que se realizou ali para as bandas de Santo Tirso, o passeio de BTT organizado pelo grupo do "Vento Norte", sob a liderança do "grande" Pedro Indy Ribeiro.

A hora marcada era 8.30, mas alguns minutos mais tarde, ainda chegava imensa gente ao local, Caldinhas de nome. O ponto de encontro era numa avenida com forma de alameda ladeada de plátanos, muito bonita por natureza, mas ainda mais rica no colorido oferecido pelas figuras humanas ali presentes e pretendentes a pedalentes nas suas máquinas, variadas em forma e qualidade e ainda mais coloridas.

Ali cheguei com o meu amigo Zé "Nãocotina", sem grandes pressas, que "o atraso haveria de chegar". Cumprimentados os amigos e preparadas as montadas, dediquei-me a fazer umas fotos do ambiente, que isto de ser "empenado profissional", tem inconvenientes, isto é, uma vez iniciado o passeio, não há grandes oportunidades de fotografar os restantes em movimento, pelo que se torna necessário aproveitar todas as oportunidades... enquanto parado!

Por falar em fotos, também guardei em imagem o discurso do senhor Pedro Indy. Sim senhor, falou bem e claro, acho eu que, com os meus afazeres de (mau) repórter, não lhe dei a necessária atenção. Só me lembro de nos mandar esperar pelos guias caso tivéssemos problemas e de nos dirigir um pedido de desculpas pelo lixo que haveríamos de encontrar mais tarde, algures no monte, por horas de regresso. Quanto a desculpas... estamos falados, dado que também não é sua a culpa da meteorologia que o seu padrinho homónimo que é santo e que tem a chave da arca da chuva, fazia questão de manter feia e cinzenta mas curiosamente sem aguaceiros durante as horas de pedalação.

Sairíamos então por estrada, passando pela bela rotunda de Santo Tirso, sempre a descer e, aludindo a certa frase de amigo meu, "isto de descidas em demasia é mau agouro...", lá chegámos ao monte... a subir, claro! Subir? Alguém pediu uma subida? Pois "cliente feliz é o nosso lema" e lá fomos, todos em filinha nos muitos single tracks desta fase do passeio, barafustando contra o $%%##∓%% do Indy que assim se fartava de "vender bilhetes".

Mas o rapaz tem desconto. Todos barafustavam mas, ao chegarem lá acima, todos tinham uma expressão de suprema felicidade estampada naqueles palmos de cara por baixo dos capacetes. Subida a subida, ora com pedra, ora com terra, também e algures, com alguma lama, eu próprio, empeno certo à vista, me via feliz por cada novo feito. Aliás, até que nem me saí nada mal, devo confessar!

Cerca de cem participantes? E como é que cem mecos, duzentos pedais, duzentas rodas e quase dez toneladas de massa mecano-humana conseguem ultrapassar aqueles trilhos técnicos onde mal cabe uma bicla de cada vez? "Cuidado à direita"; "oh pá, olha aí um jeitinho"; "ai... ai... ai... que lá vamos nós" e ainda alguns menos distintos mas porventura mais eficientes "%%#$/∓%%/, assim não se consegue andar, ∓%%$∓#∓"! Pois é, com um tanto de paleio, mais vernáculo, menos palavrão mas sempre com muita paixão, a coisa vai... Ah, claro e também com a ajuda daquele omnipresente senhor "bocamaldoso" que viajava de jipe e que "ganhava a vida" a picar o pessoal com um riso maroto de orelha a orelha!

A certa altura, damos de caras com uma subida em pedra lisa, calcetada à moda romana, embora bem mais recente, imagino eu. A coisa ia difícil, pela inclinação e pela concentração profunda e constante que o trilho exigia. A cena é óbvia e deve ter sucedido a muitos no extenso pelotão: por muito que se tente, não se consegue obrigar a roda da frente a ir para onde se quer e, como é demais conhecido quando isso acontece... pumba, quem fica a ganhar é a secção de tombofilismo, com mais uma magnífica peça de colecção e arte.

A coisa não era para menos. O piso apresentava-se muito irregular, com as célebres lages, à falta de melhor material, a serem representadas por meras pedras redondas, desiguais em tamanho, desniveladas e escorregadias pela humidade, intercaladas por inoportunos buracos que, com certeza, não faziam parte da ideia inicial do projectista... "mas estes romanos usavam rodas quadradas ou quê?" ouvia-se a um dos participantes que, ao dizê-lo, apresentava nos lábios o mais malicioso dos sorrisos!

A certa altura, já todos tínhamos a nossa dose de cansaço pela sucessão ininterrupta de subidas e vem de frente para nós mais uma, esta quase vertical mas larga, na forma de um estradão de terra batida com alguma pedra solta. "Desta vez vou arrear", penso eu, convencido da minha incapacidade para vencer a dita! E estou eu ainda no sopé, vem de lá um descendente a alta velocidade, "sai da frente que eu não travo". Era um personagem de outras histórias que não a nossa, sendo logo secundado por mais outro e outro e outro ainda... Pensei ali mesmo (e acho que não fui só eu) se não seria mais saudável mudar de história, que é como quem diz, mudar de passeio para outro com percurso muiiito mais adequado à minha condição, como era aquele que ali se adivinhava: a descer! Mas não valeu a pena! Naquele vai e não vai, vira que não vira, a minha bicla chegava lá acima sem que eu tivesse dado por isso e depois... bem, depois já não valeria a pena, até porque uma curta paragem se lhe haveria de seguir para reagrupamento e recuperação de forças (e mais umas fotos, já se conhece o porquê...).

Por falar em reagrupamento, há que elogiar o grupo do VN (Vento Norte) pela excelente organização, nomeadamente a este nível. Com um total de participantes a rondar os cem elementos, já foi dito, não seria de esperar que as paragens motivadas pelas inevitáveis e arreliadoras avarias não surtissem efeitos. Pois desiludam-se os mais incrédulos que, se avarias ou mesmo furos houve, eu e os restantes não os sentimos, não! A organização arquitectara um esquema bem montado e baseado em grande número de guias e de outros auxiliares que ficavam para trás, à medida do necessário, para ajudarem os mais azarados e os acompanharem e orientarem até atingirem novamente o pelotão. Com esta estratégia, poucas paragens de reagrupamento acabariam por ser feitas, com as consequentes vantagens para todos. Parabéns, pois, ao Pedro Indy e aos seus "amarelinhos" do Vento Norte que fizeram um excelente trabalho.

Já levávamos uns quilómetros e chegávamos às cercanias de Paços de Ferreira. Avanço uns metros sobre o pelotão e paro para fazer umas fotos. Era vê-los, todos animados, a fazerem tropelias para a objectiva... diziam adeus, mostravam sorrisos e boas disposições que as subidas entretanto encetadas já haviam lavado há muito, diziam piropos uns aos outros... enfim era uma alegria pegada!

E o Monte do Pilar chegou, com paragem obrigatória junto ao bem visível marco geodésico, montado em penedo de respeito, mesmo ao lado da estrada. O pessoal estendia-se pelo terreno, ora nas bermas, ora no alcatrão, estorvando a inocente senhora automobilista que ali passava, ora mesmo no penedo que é excelente miradouro. E que vista magnífica dali se via, pese embora o facto de a neblina que se fazia sentir ocultar um pouco do seu brilho! Das poucas paragens de grupo que se fizeram, esta foi possivelmente das mais marcantes, no que respeita à paisagem oferecida.

Mas era chegada a hora da vingança. Todo aquele "subir" que até ali se fizera haveria que pagar a conta e, recorde-se, estávamos então no local mais alto das redondezas, pelo que a saída só poderia ser... a descer. O troço que então se iniciou fez esquecer tudo o resto e fez as delícias dos mais atrevidos, ziguezagueando por entre as rochas que por ali abundam, ou não fosse aquela a terra do trial nortenho. Havia que, em poses que nem ao demo lembra para colocação do centro de gravidade, passar sobre graníticos redondos como melões gigantes, contornar os mais agrestes, passar por entre outros em parcos centímetros de largura, descer escorregando na penedia e na terra já solta por tantas outras rodas precedentes, passar por dentro de poças de água de cor castanho opaco e, finalmente, atingir o sopé daquilo tudo, com a sensação inigualável de "dever cumprido". Eu que ali parei para dar gosto ao dedo e ao obturador, pude apreciar devidamente o espectáculo e as expressões de contentamento dos mais afoitos.

Continuando a descer, ajudo com alguma assistência um recém acidentado, curiosamente em zona de menor risco, embora com inclinação acentuada. O joelho pagara caro o tombo e, como se veria mais tarde, a desistência seria a melhor opção. E a descida continuava, para mim calma e serena, de forma a controlar e a apreciar cada movimento. Os drops apareciam agora em catadupa, aumentando o risco mas também e muito principalmente, o prazer.

Permitam-me que pare aqui um pouco para descrever o vale que então cruzei. Devo dizer que não contava mesmo encontrar um local com semelhante beleza o que, aliás, só vem confirmar a ideia que se vai felizmente construindo, de que o BTT é um meio único para o conhecimento de muitos e belos locais.

O vale estendia-se em inclinação descendente para a minha esquerda, ladeado por uma vegetação que, sendo intensa, não o era em demasia. Havia arvoredo alto e esguio, na forma de eucaliptal que não faz ali grande moléstia, devido à disponibilização de grandes quantidades de água transportadas por volumoso riacho que afinal e após consulta das cartas da zona, é, nem mais nem menos, o bem conhecido e quase que omnipresente Rio Leça. Este, “obstaculizado” por um dique improvisado, acaba por cair em cachoeira, formando uma pequena queda de água, branca de espuma, que contrasta com o verde dos musgos e pequenas folhas que cobrem os troncos verticais e as rochas das imediações. Penso que a luminosidade, própria do dia cinzento que era, aumentava ainda mais o efeito paradisíaco daquele ambiente, emprestando-lhe uma tonalidade romântica ao colorido em geral.

Um pouco mais abaixo, uma pequena ponte permitia a travessia do curso de água, embora com alguma cautela, pois o piso era extremamente escorregadio, em consequência das humidades naturais do local. Seguia-se-lhe uma subida, pequena mas muito íngreme, que se permitiria acrescentar mais um tombo (um "tombinho", diria eu) à minha colecção, por escorregamento prolongado da roda traseira e consequente falta de tracção.

E eis que se me depara a visão do dia: a anunciada paragem para alimentação, desta feita em lugar de nome Valinhas, um bonito parque de merendas.

Diziam as más-línguas que o jipe com a tão desejada paparoca se atrasara, mas afinal parece que nós é que nos adiantámos! Curioso, com tanto trilho trepado e mesmo assim... Mas diga-se de passagem que a demora foi bem aproveitada por todos: conversava-se, comentavam-se as maiores peripécias e tropelias cometidas até então, oleavam-se correntes, desviadores e outras peças, apertavam-se parafusos nos pés... Como nos pés? Realmente, facto digno de registo, alguém apertava parafusos na sola da sapatilha de outrem, estando este em posição... menos elegante e a fazer lembrar operações, também em solas ou similares, mas em pés de formato diferente...

Menos simpático era o aspecto do joelho daquele participante que acudíramos, algumas centenas de metros atrás. Apresentava um inchaço deveras impressionante e que preocupava todos quantos o viam. Espero sinceramente que os danos não tenham sido muito graves e que o amigo em causa tenha recuperado bem.

Ah, mas eis que da bruma, qual D. Sebastião "O Desejado", chega o tão falado jipe. Logo uma equipa de amarelinhos, qual exército bem treinado, se apronta a carregar sacos, tachos, caixas e outros volumes que dispõem sobre e à volta de uma mesa, daquelas de pedra, destinadas à realização de piqueniques. Febras em pão, grandes e suculentas? Cervejas pretas, em quantidade sobrante? E vinho da região, em garrafas de litro? Fruta? Mas quem é que contava com semelhante boda, por preço, a bem dizer, quase gracioso? Aquilo sim, é que era ingerir energia, "directo na veia", quais barras qual quê! E houve quem comesse, bebesse e repetisse... a granel.

A coisa foi de tal ordem que, no rearranque, já havia quem caísse, mesmo sem estar a circular! Deve ter sido da "fruta", digo eu...

Após um sorteio de alguns prémios (mais uma surpresa) lá saímos para retomarmos o caminho. Aproveitando o estado de euforia (?) saí na frente do pelotão e isolei-me com intenção de, mais à frente, fotografar o pessoal. Passava-se então numa zona florestada cujo chão, de piso irregular, se encontrava completamente oculto por folhas castanhas outonais. Local muito bonito e digno de lembrança, este.

A partir daqui, o percurso fez-se por zonas que alternavam entre o monte e o campestre, com passagem em locais também eles dignos de registo. As ramadas altas, ou não estivéssemos na zona do vinho verde, marcaram presença por várias vezes, assim como os caminhos rurais, alguns ladeados por muros e de novo cobertos pela folhagem caída. Na tentativa de registar em imagem o máximo do evento, paro em vários locais diferentes e fico ali, a dar ao dedo durante uns minutos: vêm-se muitos sorrisos, porventura já mais sinceros, após o lauto almoço, alguns gestos de adeus para a câmara, "isso é para alguma revista?" e ainda um "∓%%/#$∓%%, já é a terceira vez que você desliga a máquina quando eu vou a passar"...

Descidas também as houve, algumas bem radicais e estimulando a arte de alguns “tombófilos”, dos quais a minha câmara ainda apanhou um, vestidinho de vermelho e tudo para que não passasse despercebido!

E água? Não na forma de chuva que, como se disse já, essa acabou por não incomodar. Nem precisava, se o objectivo era molhar: é que a água no solo era muita e, em vários pontos, formava poças de profundidade abissal, de tal forma que a pedalação era feita de forma totalmente submarina! Aqui via-se de tudo, os que "fugiam" pelo lado, tanto quanto podiam, os que a medo lá passavam pelo meio, na esteira dos outros e os nada temerosos, que literalmente se atiravam para a frente e "logo se verá"...

Mas para que ninguém se ficasse a rir, o autor do percurso, que é democrata, projectou uma passagem por um riacho de corrente forte e profunda e, já agora, fria, que cobria as rodas de todas as biclas a mais de metade da sua altura. Se alguém ainda tinha os pés secos, ali mesmo os deixou, malgrado os truques usados de polainas, sacos de plástico ou mesmo de galochas que fossem!

Deve ter sido para arrefecer os ânimos, porque já de seguida vinha "a" subida final, longa, inclinada e, claro está, bem técnica, ao gosto dos melhores BTTistas e que aqueceria qualquer mortal. Aliás, facto a salientar, a vista ao longe da loooooonga fila de ciclistas às cores, trepando pelo single track inicial, colina acima, era magnífica. Do outro lado, haveria ainda lugar para mais umas boas descidas técnicas, as quais se mostrariam difíceis de fazer por alguns (ou até mesmo, muitos) que já se mostravam deveras cansados. É que, como se sabe, há descidas que custam tanto a fazer como as subidas...

Com direito a mais uma ou duas paragens para reagrupamento e hidratação e respectivas fotos de grupo, a aproximação a Caldinhas lá foi acontecendo e foi com "alegre tristeza" que alguém (eu) dizia em voz alta, já na inicial avenida dos plátanos, "isto agora perdeu a piada toda... acabou"!

Acabou realmente um dos mais agradáveis passeios de BTT que fiz até hoje. Um pouco penoso, já se sabia, mas também por isso muito gratificante, pela sensação reconfortante que deixou a cada participante de vencer novos desafios. Um trajecto bem escolhido, paisagens lindas de ficar cego, um lanche com recheio completamente inesperado e um convívio a deixar saudades, tudo soma pontos para uma realização muito positiva.

O grupo "Vento Norte" em geral e o Pedro Indy em particular estão assim de parabéns pela organização e pela forma como conduziram, momento a momento, o passeio, com resultados à vista num equilíbrio perfeito entre a manutenção da unicidade do grupo e a quase ausência de grandes paragens. A eles devo (e penso que todos os participantes corroborarão desta opinião) um dia extremamente bem passado na prática da modalidade que tão agradavelmente abraço, e a eles concedo um merecido voto de louvor.

Assim, finalizando, resta-me despedir do Manobras III e esperar pelo Manobras IV, ainda melhor, pela certa. Numa época de declarado crescimento da modalidade, com organizações de passeios, provas e outras aventuras a acontecer um pouco por toda a parte, é bom saber que os "nossos", à porta de casa, ainda são da melhor qualidade.

Bons passeios para todos e, como de costume,... "Adeus e até ao próximo empeno"!