Cachecóis

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Contribuição para uma

História do Cachecol de Futebol

Não sei quem se terá lembrado de fazer o primeiro cachecol de futebol! Talvez uma simpática senhora que, lançando mão de um novelo de lã branca e de outro de lã azul (pensando em termos do FC Porto, claro), realizou um cachecol com barras alternadamente azuis e brancas!

Certo é que os que têm idade para isso se recordam de ver à venda, talvez ainda nos anos setenta do século passado, mas seguramente nos anos oitenta, cachecóis desse tipo, embora feitos de uma fibra artificial em vez de lã. Nesses tempos, são os próprios vendedores que fabricam os cachecóis nas suas casas. A actividade é perfeitamente legal, pois os clubes ainda não tinham reservado direitos sobre os seus nomes e emblemas.

À medida que a apetência pelos cachecóis de futebol se vai generalizando, os produtores-vendedores de cachecóis vão inovando. Aparecem assim os primeiros cachecóis com o emblema e o nome do clube. Estas inscrições são estampadas, de forma artesanal, sobre um cachecol feito, simplesmente, de fio branco e azul!

Dada a elasticidade natural da malha com que o cachecol é feito, é muito fácil os pormenores da estampagem se irem perdendo, uma vez que a tinta usada tende a estalar e a cair, depois de seca. Não sei até que ponto este aspecto terá sido decisivo, o que é facto é que este tipo de cachecóis deixou de se fabricar logo nos princípios dos anos noventa!

De facto, ainda nos anos oitenta, outro tipo de produção artesanal de cachecóis se foi impondo, o da estampagem em cetim ou tecido similar.

Não só o tecido é mais barato do que a produção da malha, como a estampagem é muito mais duradoura e permite inscrições e desenhos com muito melhor qualidade. Apesar de a qualidade artística ser, em geral, muito modesta, aparecem já algumas composições bastante interessantes.

Em contrapartida, as franjas utilizadas, claramente adaptadas dum produto destinado a outros fins, são francamente pobres.

Um caso particular de impressão por estampagem é justamente o cachecol comemorativo mais antigo, que eu saiba, do FC Porto!

É consideravelmente mais antigo do que os mais antigos estampados artesanalmente e, justamente, não parece ser artesanal. Não só a impressão é muito boa como a composição e os desenhos são de muito boa qualidade!

Trata-se, provavelmente, duma edição esporádica, feita numa fábrica logo com tecnologia e know-how que possibilitaram a obtenção dum produto de qualidade superior.

O tipo de cachecol hoje mais difundido é certamente o jacquard tubular, talvez com a triste excepção do nosso país.

O nome jacquard refere-se a Joseph-Marie Jacquard, tecelão e inventor francês que, em 1804-05, inventou o mecanismo do, assim chamado, tear de Jacquard. Este mecanismo, aliás um desenvolvimento do projecto do tear de Jacques de Vaucanson, de 1745, é controlado por padrões de furos feitos num conjunto de cartões, permitindo assim que um tear repita indefinidamente o mesmo desenho, isto é, o fabrico em série de um determinado produto de tecelagem. O uso de cartões perfurados estendeu-se a outras áreas durante todo o século XIX e ainda veio a constituir o primeiro suporte de gravação dos programas de computador, já no século XX.

Assim, para realizar um cachecol tipo jacquard tubular começa-se por tecer uma peça correspondente às duas faces, iguais ou não, do cachecol, que é costurada longitudinalmente pelo avesso. Virando o tubo assim obtido e passado a ferro obtém-se então o produto final, depois de costuradas as franjas nas duas extremidades.

Apesar de o nível de pormenores que se pode obter com esta técnica não ser muito elevado, conseguem-se resultados muito bons e, sobretudo, o produto final é um verdadeiro cachecol, quente e confortável! Talvez decorra daí a sua popularidade no centro e norte da Europa!

Aparentemente, e para já (2006), não existem condições para o fabrico deste tipo de cachecóis em Portugal. De facto, quase não se conhecem cachecóis jacquard feitos no nosso país. Há, contudo, um caso cuja explicação não se conhece. É o cachecol dos quartos-de-final de 1990-91, entre o FC Porto e o Bayern; é um cachecol deste tipo e tem inscrições em português! Onde terá sido feito?

Outro tipo de produção muito comum nos dias de hoje é o que é conhecido por ricamata. Ora, o verbo ricamare significa, em italiano, bordar e como cachecol se diz por lá sciarpa (substantivo feminino), é fácil de concluir que, em bom português, poderíamos dizer cachecol do tipo bordado. Estamos, claro, a falar de bordado mecânico.

Este tipo de cachecol permite desenhos com mais pormenor do que os do tipo jacquard. Tem, contudo, o inconveniente de ser uniface, sendo o "avesso" esteticamente desagradável.

Os cachecóis deste tipo comercializados em Portugal são, todavia, ao que parece, feitos na Itália ou na Espanha.

O primeiro cachecol comemorativo do FC Porto, realizado com esta técnica, parece ser o que celebra o campeonato de 1994/95, embora haja edições anteriores não comemorativas. Os cachecóis licenciados pelo FC Porto são, na sua maioria, deste tipo.

Até ao momento em que escrevo estas linhas (2006), a técnica que parece permitir a melhor qualidade das inscrições e desenhos é o processo de impressão por sublimação.

Este processo implica, numa primeira fase, a impressão em papel dos desenhos (invertidos) a figurar no cachecol, operação realizada numa impressora gráfica (plotter). Seguidamente, o papel assim obtido é justaposto ao tecido e prensado a quente. Em resultado, os desenhos são passados do papel para o tecido. Finalmente, este é cortado para obter os panos individuais (em geral, três por impressão), que são transformados em cachecóis num processo semelhante ao usado para os jacquard tubulares.

Decorre do processo de fabrico indicado que é possível obter duas faces completamente distintas e cujo limite é apenas a criatividade do artista. O primeiro cachecol sublimado comemorativo do FC Porto que conheço é um dos que consagram o tricampeonato. em 1996/97.

Em 2001/02, pelo menos no que respeita aos cachecóis do FC Porto, apareceu um novo tipo de produção.

É o que eu denominaria bordado fino. Na verdade, apresenta um aspecto semelhante ao tipo ricamata, mas com uma malha mais fina. Em consequência, o nível de pormenor que pode ser atingido com este tipo é consideravelmente mais elevado.

Exibe, entretanto, o mesmo inconveniente do ricamata quanto ao reverso do cachecol. Aliás, neste caso, o fio usado na teia que sustenta o cachecol e em cujas extremidades se transforma nas franjas, costuma ser sempre branco.

Como se diz no título, este texto é apenas uma contribuição para a história do cachecol de futebol. Tenho consciência de que haverá algumas imprecisões e até incorrecções, para além de umas tantas omissões. Assim, quaisquer informações adicionais, sugestões e correcções serão bem-vindas.

 

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