Ensinar Engenharia: Profissão e Ética

  Paulo M. S. Tavares de Castro

Departamento de Engenharia Mecânica e Gestão Industrial

Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto

Rua dos Bragas, 4099 Porto

29 de Outubro de 1996 

 

http://garfield.fe.up.pt:8001/~ptcastro/ethics.html, relocalizado em 21 de Janeiro de 1998 em:

www.fe.up.pt/~ptcastro/ethics.html

 

Estrutura deste documento

 

 

Nota prévia

Estas notas servem de apoio a uma palestra a realizar em 12 de Novembro de 1996 integrada na acção 'Ensinar Engenharia' que decorre na FEUP no segundo semestre de 1995/6 e primeiro semestre de 1996/7, organizada pelo Conselho Directivo da FEUP.

Não foram traduzidas as transcrições de textos redigidos em Inglês, dada a extensão das transcrições e tendo em conta que eventuais utilizadores deste documento não precisam dessa tradução.

Na última secção são incluidos links para diversas fontes da WWW relativas à ética, entre outros o Ethics Center for Engineering and Science (Case Western Reserve University, Cleveland), relativo a temas de ciência e engenharia, o Professional Ethics Report do Scientific Freedom, Responsibility and Law Program da American Association for the Advancement of Science, e a page do Institute for Business and Professional Ethics (DePaul University, Chicago) relativa a ética de negócios.

 

 

 

Ética

A Ética é, certamente, um capítulo da Filosofia.

Assim, os titulares de um grau de Doctor of Philosophy - como eu -, estão provavelmente em condições favoráveis para se pronunciar também sobre esse tema (ainda que, no meu caso, o PhD tenha sido obtido em resultado de trabalho sobre Mecânica da Fractura ...).

Estabelecida esta (frágil) legitimidade, e agora num tom mais sério, a Ética orienta as decisões quanto ao que se deve e não deve fazer.

Neste curso, estaremos ocupados com o ensino da engenharia, o que implica referência à ética profissional dos engenheiros, à ética da actividade docente, à ética da actividade discente, e ao eventual ensino da ética profissional nas escolas de engenharia.

Procurarei referir estes temas especializados em secções seguintes, mas antes convirá mencionar brevemente o tema da Ética em geral. Qualquer apresentação do assunto (refs.1, 2) recorda que existem (pelo menos) duas escolas: a dos teleologistas (consequencialistas, utilitaristas), e a dos deontologistas.

A primeira, de que são expoentes Jeremy Bentham e John Stuart Mill, procura garantir 'the greatest good for the greatest number', e, assim, estabelece que a qualidade de uma acção é medida pelos seus resultados. A segunda parte do princípio de que há coisas que se deve, ou não deve, fazer, independentemente dos resultados da acção. As religiões são exemplos de deontologias.

Os consequencialistas deparam com o problema da definição do bem resultante - quem o define, como o define, e que fazer no caso de bens incompatíveis. O Ford Pinto produzido com o seu mal concebido depósito de gasolina, em que a economia de $11 em cada carro excedia os custos de indemnização das vítimas dos acidentes previstos ... (3); o trabalho infantil; o direito à escolha versus direito à vida e o aborto, ilustram situações éticas de complexidade diversa, que podem ser discutidas à luz desta teoria.

Os deontologistas, por seu lado, salientam os deveres e obrigações, não sendo claro quem os estabelece e como são estabelecidos. E quem só se preocupa com deveres pode terminar como guarda de campo de concentração nazi ...

Um tema associado às afirmações anteriores é o do relativismo cultural, isto é, a afirmação de que a moral é resultado do contexto e da época, que define as actividades sociais e as actividades anti-sociais. Este é um aspecto da ética 'situacional', que valoriza o contexto em que a acção ou decisão tem lugar. Sem prejuízo do mérito da perspectiva multicultural introduzida, esta teoria pode ter consequências perversas. Exemplos: a ética 'situacional' pode pretender justificar a castração/circuncisão feminina praticada em algumas sociedades do terceiro mundo, invocando que nesses meios tal procedimento é tradicional. Ou, porque o suborno é prática corrente em determinados países, admitir que uma empresa com actuação irrepreensível em economias desenvolvidas, use subornos nessas sociedades. Ou, noutro exemplo mais próximo e mais ligeiro, a ética 'situacional' é invocada por alunos quando não cumprem prazos de entrega de trabalhos... (levantando problemas de igual tratamento).

Estas três teorias (deontológica, teleológica, e situacional) são todas imperfeitas, incompletas face à complexidade do mundo; outras não serão, certamente, melhores. Parece claro que mais do que um conjunto fixo de regras, a ética é uma actividade, um esforço permanente, levado a cabo em particulares circunstâncias, na procura das melhores soluções para problemas (4).

Mentes iniciadas na discussão destes problemas podem porventura encontrar mais facilmente pistas adequadas de solução combinando aspectos aplicáveis de cada doutrina. Neste contexto é assinalável o excelente artigo de Donaldson na Harvard Business Review, (5), abordando o problema da realização de negócios em ambientes com tradições culturais e/ou desenvolvimento relativo muito diversos. A tese avançada é a de que o relativismo cultural (do tipo 'em Roma faz como os romanos') é inaceitável, mas que desde que respeitado um conjunto de valores ('core human values') é indispensável atender ao contexto local. É dado o exemplo do código da Motorola: 'Employees of Motorola will respect the laws, customs, and traditions of each country in which they operate, but will, at the same time, engage in no course of conduct which, even if legal, customary, and accepted in any such country, could be deemed to be in violation of the accepted business ethics of Motorola or the laws of the United States relating to business ethics'.

A discussão dos fundamentos da ética é, provavelmente, uma actividade fascinante para os apreciadores das subtilezas das argumentações dos Bentham, Mill, Kant, Rawls e outros. Os engenheiros não estão, em geral, vocacionados para essas discussões, o que obviamente não os isenta de atenderem às questões éticas que se encontram intimamente associadas à sua actividade, dada a elevada responsabilidade das funções que frequentemente desempenham. Para os engenheiros e outros profissionais, importa então um conhecimento do tópico que no meio anglo-saxónico é designado por Applied Ethics, que trata não dos problemas éticos em geral, mas sim do conjunto circunscrito de problemas resultantes do, ou envolvidos no, exercício de determinada actividade profissional. E aqui aparecem especializações, em função do objecto de cada profissão: um código de ética profissional da medicina aborda questões diversas das abordadas num código de ética profissional da engenharia.

 

 

 

Códigos éticos 

Referi no início da secção anterior a especialidade do meu doutoramento, que leva a que parte da minha actividade profissional actual decorra no âmbito da integridade estrutural: interpretação de causas de fracturas e roturas de estruturas e equipamentos mecânicos, (6). Podem estar envolvidos interesses económicos significativos, função da importância dos acidentes analisados; imagine-se então uma eventual solicitação de um parecer - especificando porém uma conclusão predeterminada !

Os engenheiros encontram problemas éticos na sua acção, por exemplo situações de conflito de interesses, responsabilidade pela saúde e segurança do público, segredos industriais e propriedade intelectual, prendas de fornecedores, honestidade na apresentação de resultados de ensaios e de investigação, etc. .

As associações profissionais foram respondendo a esta realidade elaborando códigos, que representam o consenso existente em determinado momento quanto às normas de conduta que os respectivos membros devem utilizar, (7).

Nesta secção são apresentados diversos exemplos relevantes de códigos éticos de associações profissionais, e no Anexo poderão ser encontrados ainda outros.

 

American Society of Mechanical Engineers (ASME) Code of Ethics of Engineers:

The Fundamental Principles

The Fundamental Canons

 

O ASME Board on Professional Practice and Ethics dá apoio aos membros na procura de soluções para casos concretos, à luz do código acima.

 

Estatuto da Ordem dos Engenheiros, decreto-lei 119/92 de 30 de Junho, ref.8 :

....

deveres decorrentes do exercício da actividade profissional

art. 86 - Deveres do engenheiro para com a comunidade

art. 87 - Deveres do engenheiro para com a entidade empregadora e para com o cliente

art. 88 - Deveres do engenheiro no exercício da profissão

art. 89 - Dos deveres recíprocos dos engenheiros

....

 

Este código resulta de um 'Projecto de Código Deontológico' que a Ordem dos Engenheiros publicou em 1989, ref.9, do qual se retira a afirmação ' .... no exercício das suas tarefas profissionais, o engenheiro deve realizar-se a si próprio, contribuir para a valorização dos outros e dignificar o próprio trabalho. Assim se exprime, na diversidade das tarefas, a dimensão ética do trabalho do engenheiro'. (Como curiosidade regista-se que a redacção adoptada no estatuto resulta quase integralmente daquele projecto, excepto no ponto 3 do artigo 89: 'O engenheiro deve prestar aos colegas, desde que solicitada, toda a colaboração possível', cuja redacção no projecto era (art.10, #1) 'O engenheiro deve prestar aos colegas toda a colaboração possível').

Os exemplos anteriores (ASME, e Ordem dos Engenheiros) ilustram as preocupações de natureza ética na óptica de associações profissionais tradicionais da engenharia.

Os engenheiros docentes universitários devem, naturalmente, respeitar as normas de conduta próprias de engenheiros, mas também as de docentes. E quais são estas?

Do livro 'Teaching Engineering' de Wankat e Oreovicz (da Purdue University) retirei um sumário de declaração da AAUP (American Association of University Professors), ref.10:

 

Summary of AAUP Statement on Professional Ethics (da ref.10, p. 341)

The professor recognizes special responsibilities:

 

 

 

Ética do professor; ensino da ética

Esta intervenção no curso 'Ensinar Engenharia' permitiu-me por esta vez mudar de papel, e, em vez de actor, tentar ser observador do processo em que estou inserido. Para as observações realizadas fui ajudado por leituras diversas, de que guardava recordação, e que são frequentemente citadas no que segue.

 

'.... We professors have the income of civil servants but the freedom of artists. This imposes certain obligations. The formal duties imposed by our institutions are minimal, anywhere between six and twelve hours in the classroom per week during eight months of the year. Yet most of us work long hours and spend many evenings at our desks or in our laboratories. We do not tell students that this is our day off, that they must seek someone else with whom to discuss their problems. We do practice our profession as a calling, considering ourselves not employees but shareholders of the university: a group of owners. 'Share values' are determined by the quality of management and the product. We seek to keep those values as high as possible.' (do notável livro 'The University: an Owner's Manual', pelo antigo dean de Harvard Henry Rosovsky, ref. 11, p.165)

 

Docentes são cidadãos como quaisquer outros, sujeitos às regras éticas geralmente aceites pela sociedade ('honrar a palavra dada e os compromissos assumidos', etc., etc.). A especificidade da sua acção, porém, envolve problemas particulares. Entre outros:

 

Actividade Docente

Questões de natureza ética na actividade docente são sugeridas pelo sumário do texto da AAUP apresentado acima. Referem-se sem preocupação de ordem ou de importância relativa apenas algumas:

 

Sobre a questão da equidade, acima referida, é interessante reproduzir aqui o 'Nondiscrimination statement' da University of California (UC): 'The UC .... prohibits discrimination, including harassment, on the basis of race, color, national origin, religion, sex, disability, age, medical condition (cancer related), ancestry, marital status, citizenship, sexual orientation, .... . This nondiscrimination policy covers admission, access, and treatment in University programs and activities', ref. 12. Ao contrário do que se passa em ambientes de pendor formalista, que encaram estes escritos como pro-forma, os edificios na UC, por exemplo, estão previstos para utilização por quem necessite de cadeira de rodas - sem o que existiria violação da proibição de discriminação baseada em deficiência física.

Sobre a questão do envolvimento em tarefas de gestão, refere-se a eventual utilização de pessoal docente 'junior' em tarefas administrativas pesadas, sabendo-se do consequente grave prejuízo para a normal evolução das suas carreiras. Tal situação só é compreensível em instituições com extremas carências estruturais, sendo bom recordar que mesmo essas - de acordo com a uniformidade do sistema - usam em geral sistemas de avaliação da actividade profissional idênticos aos de instituições 'normais'.

Quanto à vantagem pessoal e para a escola no exercício de algumas actividades afins da sua especialidade em regime livre refere-se o sistema, praticado em algumas universidades dos EUA, de 'um dia por semana' para o docente fazer os seus trabalhos exteriores à escola; conviria, a propósito, discutir a regulamentação nacional sobre 'dedicação exclusiva'.

Nas research universities dos EUA, de que Lehigh é um exemplo, tipicamente as regras são (das Rules and Procedures of the Faculty, Lehigh University, Sept. 1991, ref.13, ponto 2.5): '.... The university recognizes the value to both the individual and the university when a faculty member engages in activities of a professional nature for added compensation. These activities may include but are not limited to consulting, short courses, liaison activity, and corporate board activity. The university approves and encourages that participation when it is complementary and non-competitive to the duties and goals of both parties, and contributes to the professional growth of the individual. The duties of a full-time faculty member of Lehigh University include teaching, research and scholarship, and service to the university community. In order to fulfill these responsibilities to students, colleagues, and the university, activities for additional compensation should not excede an average of one day per week. All faculty activities of a professional nature for which compensation is received shall be reported annualy to the chairperson .... '.

 

Carreira docente

As questões de carreira profissional dos docentes levantam óbvios problemas éticos: igual tratamento, relevância e carácter exaustivo da evidência considerada, objectividade dos julgamentos, constituição dos juris, oportunidade temporal das medidas tomadas (ie, de abertura de concursos, dos incentivos informais), e publicitação das condições de promoção, são alguns dos ingredientes sensíveis no processo.

Em Portugal, este tipo de problemas é tratado pelo Estatuto da Carreira Docente Universitária - ECDU, ref.14.

E no estrangeiro? as refs.15, 16 tratam da questão decisiva da carreira nos EUA, a tenure (contratação definitiva). A tenure é usualmente apresentada como uma medida de defesa da liberdade académica, embora os críticos do sistema a associem predominantemente à protecção da segurança de emprego - com a conotação negativa de perda de competitividade uma vez atingida. Um aspecto do sistema de tenure dos EUA, que com vantagem podia ser importado para Portugal, é o das avaliações anuais (annual reviews) da actividade dos docentes que ainda a não obtiveram, (ver, por ex., refs. 13 (Lehigh) e 17 (Purdue)).

Os adversários da tenure invocam a meritocracia como argumento: da mesma forma que num clube de football o mister corre com o guarda-redes logo que consegue comprar quem salte mais rápido mais alto mais longe, também na universidade os departamentos se deveriam livrar dos seus docentes logo que na nova fornada de PhDs apareça quem prometa ou consiga mais dinheiro, mais publicações, ou até aparente ser melhor docente. Só que as universidades não são clubes de football, nem provavelmente os seus decisores se inspiram nos presidentes daqueles clubes ...

Naturalmente diversas instituições terão procedimentos diversos para tratar estes problemas. Harvard é notoriamente uma excepção: aí, os untenured professors em geral não obtem tenure. E os tenured professors são contratados quando necessário, depois da procura de quem - a nível mundial - melhores garantias dá de excelência na área de interesse. Outras instituições contentam-se com menos, mas em geral procuram compatibilizar valores do tipo meritocrático com os valores próprios de membros de uma comunidade solidária.

Nos EUA, diferentes instituições tem diferentes procedimentos para tratar da tenure e promoções (15). Seja qual for o detalhe ou a métrica desses procedimentos, no fim do dia prevalecem as comparações, tácitas ou explicitas, com profissionais exemplares que anteriormente obtiveram o estatuto, e com o curriculum com base no qual o obtiveram, (16).

 

'Ensinar' Ética

'Ensinar' ética em escolas de engenharia é uma actividade com resultados dificeis de medir (18). O ensino baseado em casos parece ser o indicado para as escolas de engenharia. Partindo da premissa que copiar e plagiar são problemas éticos familiares aos estudantes (ver refs.18, 19), a ref.18 apresenta uma série de exemplos didácticos ('casos') associando situações de integridade académica a situações ('casos') encontradas por engenheiros na sua actividade profissional.

O uso de videos no contexto destas sessões parece ser corrente (ver refs.18, 20).

Refiro, a propósito, o video da ASME 'Questions for Discussion: Ethics in Action' que trata o desastre do Challenger em 1986, no vigésimo quinto lançamento do space shuttle. Roger Boisjoly, engenheiro responsável pelo fatídico O-ring na Morton Thiokol Corp. (MTI), explicitou dentro da empresa e ao cliente (NASA) as suas reservas quanto à segurança do respectivo funcionamento, à luz dos seus estudos e experiências anteriores. Nos momentos anteriores ao lançamento, em vez da tradicional atitude dos gestores 'não é lançado enquanto não se provar que é seguro', prevaleceu 'devem os engenheiros provar que o lançamento não é seguro'; tal não era possível, e a consequência é história ... . Em seguida é nomeada pelo Presidente dos EUA uma comissão de investigação do desastre (cuja acção é descrita por um dos seus membros, Richard Feynman, em (21)). Os advogados da MTI indicam aos seus técnicos que ali devem responder com verdade, mas apenas 'sim' ou 'não'; em vez disso, Boisjoly divulga a totalidade da informação a que tinha acesso. Não regressou ao emprego... .

A ref.20 parte da premissa de que os alunos das escolas de engenharia já são mais ou menos maduros no sentido moral, e que portanto a escola não tem de se ocupar explicitamente com esse aspecto. Porém, o conjunto de normas de conduta específico de cada profissão é em geral desconhecido dos alunos até à entrada no curso escolhido. Assim os alunos de engenharia devem aprender, e as escolas devem ensinar, a ética da engenharia e a ética dos negócios. Entre as vantagens da abordagem destes temas na escola, a ref.20 inclui o contribuir para que os futuros profissionais reconheçam mais facilmente problemas éticos, e para desenvolver a sua capacidade para lidar com este tipo de problemas, frequentemente ambíguos, open-ended, e sem soluções evidentes ou únicas. Da ref.7, '.... problems of professional responsibility are like design problems - while there is no one right answer, some answers are better than others'. E, '.... just as students need practice solving computational problems (they can't learn to solve these problems simply by hearing about them), they also need practice solving ethical problems'. Ou, da ref.20, 'teaching engineering ethics is part of teaching engineering'.

Desde os anos oitenta, o ABET (Accreditation Board for Engineering and Technology) exige que nos cursos de engenharia seja abordada a questão da ética profissional (7). Nos novos critérios da ABET, (22), a questão ética é mais uma vez referida, nomeadamente quando são listadas as competências e habilitações que os diplomadas devem possuir:

'Engineering programs must demonstrate that their graduates have

 

Naturalmente, este tópico também está presente na formulação do processo de acreditação dos cursos de engenharia em Portugal. Assim, por exemplo, no item 2.3 do documento 'Acreditação de Cursos: Manual para Uso do Júri' preparado pela Ordem dos Engenheiros, ref.23, é referido que na apreciação do conteúdo curricular deverão ser valorizados:

'....

 

A actividade dos engenheiros tem, em geral, uma expressão económica que aconselha que estes sejam também familiarizados, durante a sua passagem pelas escolas de engenharia, com a ética própria dos negócios. Isto é particularmente relevante neste tempo em que crescentemente os jovens licenciados são incentivados a assumir iniciativas empresariais e desde cedo são envolvidos em actividades que excedem o âmbito estritamente técnico. O tema da ética dos negócios principia a ter expressão na Universidade do Porto, onde recentemente a Faculdade de Economia organizou um congresso sobre o assunto (24).

 

Ética da investigação

Este não é, de certeza, local próprio para estudar as relações entre o ensino e investigação nas universidades. Ainda assim, será de registar um argumento a favor da realização de investigação nas universidades, avançado por Rosovsky (11). A componente investigação da profissão de docente contribuiria para evitar o burnout e manter o interesse pela actividade, visto que em muitas áreas do conhecimento as matérias a ensinar não variam significativamente de ano para ano. Assim, a enésima repetição de um mesmo conceito pode ser causa de enfado e perda de interesse pelo acto de ensinar, o que se evitaria pelo desafio permanente da investigação; (é de referir que o enfado da repetição não é exclusivo dos docentes: que dirá o médico ao fim do milésimo diagnóstico de gripe, ou o padre confessor após mil confissões daquele pecado ...).

Nos EUA reconhece-se que a evolução da universidade, de ensino (Harvard College fundado em 1636), a serviço (land-grant universities, como a Texas A&M, no século dezanove), a investigação (as research universities do século vinte), levou a que '.... students all too often are the loosers. .... the reality is that, on far too many campus, teaching is not well rewarded, and faculty who spend too much time counseling and advising students may diminish their prospects for tenure and promotion. Faculty are loosing out, too. Research and publication have become the primary means by which most professors achieve academic status, and yet many academics are, in fact, drawn to the profession precisely because of their love for teaching or for service .... . Yet, these professional obligations do not get the recognition they deserve, and what we have, on many campus, is a climate that restricts creativity rather than sustains it', (25).

O referido estudo da The Carnegie Foundation for the Advancement of Teaching (25) discute então as funções que devem ser explicitadas como 'scholarship': 'the scholarship of discovery, the scholarship of integration, the scholarship of application, and the scholarship of teaching', e defende que o ultrapassar da actual crise de funcionamento do sistema, fazendo florescer a criatividade dos docentes sem lhes impor espartilhos comportamentais, passa por valorizar devidamente todos estes tipos de contribuições.

Esta secção é porém consagrada à investigação. Então, o que move os investigadores? Em Portugal, a ref.26 descreve as escolhas dos investigadores consultados, face às alternativas: 'problemas

Constata-se (26) que a maioria dos investigadores portugueses privilegia a última opção.

Noutras paragens as respostas a questões deste tipo podem porém ser mais directas: Rosovsky (11) descreve a sua experiência em Harvard, nas linhas seguintes: '.... great scholarship, even great teaching, is in my experience often combined with quirky character traits. Nice guys don't necessarily finish last, but it would be hard to argue that they are especially well represented among the front-runners. Shortly after I became dean, one of Harvard's greatest scientists requested an appointment. .... . I (perhaps inappropriately) inquired about his sources of scientific inspiration. A reply came without the slightest hesitation: 'money and flattery' ' ...

 

A investigação tem regras éticas próprias, reflectindo a especificidade das actividades dos investigadores. Para além de questões óbvias (fabricar ou falsificar resultados, plagiar, ...), os problemas incluem

 

A investigação em ciência e engenharia é cada vez mais frequentemente actividade colectiva, envolvendo equipas de investigadores eventualmente numerosas, sobretudo quando os avanços visados são verdadeiramente ambiciosos. Uma tarefa complexa criada por esta evolução, é a de gestor do esforço colectivo - obtenção dos financiamentos, definição do pessoal necessário, repartição das tarefas, definição de estratégias, certificação da validade e coerência dos resultados parcelares, e garantia de satisfação de prazos, ref.27.

Jovens idealistas podem imaginar que em ciência e engenharia é possível fazer uma carreira de investigador baseada na reflexão científica e estudo permanentes. Infelizmente, esses jovens idealistas são também ignorantes sobre a realidade da vida, já que a 'máquina' leva a que o profissional, para sobreviver, tenha rapidamente que se orientar para aspectos do perfil de actividade referido acima. E ele tem frequentemente os dias muito ocupados, terminados em situação de já não saber quanto é dois mais dois; é improvável, nessas circunstâncias, que desenvolva substanciais esforços hands-on na investigação 'proprimente dita', que exige como condição necessária grandes disponibilidades de tempo e de concentração.

Neste contexto, é oportuno discutir a propriedade intelectual dos resultados. Se o 'gestor directo' do projecto é coautor, onde termina a coautoria? no Presidente de Departamento, que deve manter a casa arrumada e estimular o desenvolvimento do seu pessoal? no Director da Faculdade, sem o/a qual nada sucederia? no ... ?

É interessante referir o caso de acusação de fraude originado por um paper de que eram coautores a investigadora Thereza Imanishi-Kari e o prémio Nobel David Baltimore. Aparentemente, o Dr Baltimore não tinha conhecimento preciso do detalhe do paper (mas ainda assim assumiu a defesa da sua colaboradora). Como consequência do caso, o Dr Baltimore abdicou da presidência da Rockefeller University.

O jornal semanal Chronicle of Higher Education, ou a revista semanal Science da American Association for the Advancement of Science (AAAS), são fontes de informação (também) sobre este tipo de problemas. É notório que os principais problemas parecem ocorrer no domínio das ciências da vida, e é esclarecedor saber que nos EUA o Office of Research Integrity (criado no Department of Health and Human Services) tem ao seu serviço 51 funcionários, incluindo 13 PhDs, 6 advogados, e 13 membros na divisão de política e educação , ref.28. 'Misconduct in science', aí, 'means fabrication, falsification, plagiarism, or other practices that deviate from those that are commonly accepted within the scientific community for proposing, conducting or reporting research. It does not include honest error, or honest differences in the interpretation of data', ref.29.

Receando o carácter vago da referência a 'other practices', a ref.30 defende que tal referência se devia eliminar, sem o que excentricidades de comportamento ou processo, maior originalidade e outros 'desvios' poderiam integrar-se na definição acima, ainda que certamente não configurem situações de falta de ética. Da ref.30: 'Many scientists, like others in our society, are ambitious, self-serving, opportunistic, selfish, competitive, contentious, aggressive, and arrogant; but that does not mean that they are crooks. It is essential to distinguish between research fraud on the one hand, and irritating and careless behavioral patterns of scientists, no matter how objectionable, on the other'. 'It is obligatory for the (government agencies) to investigate allegations of fraudulent acts and to impose sanctions when guilt is demonstrated. In contrast, it is inappropriate, wasteful, and likely to be destructive to science for government agencies to delve into the styles of scientists and their behavioral patterns'. Ou, em Português corrente, uma coisa é mau feitio e/ou excentricidade e/ou incompetência, coisa diversa é turpitude moral.

 

 

 

Entre nós, a batalha é ainda a da inserção completa de Portugal nas redes internacionais da ciência e tecnologia (C&T), o que exige um muito maior investimento em C&T, um muito maior número de cientistas, e certamente um grande aumento da actualmente muito baixa produtividade científica (output/cientista), ver, por exemplo, as refs.31-36. A baixa produtividade é resultado de carências institucionais e organizativas, e do desnorte da orientação global do sistema - muitos elementos da comunidade da C&T passam muito mais tempo a preparar candidaturas a 'programas' do que a investigar! Seria bom que o desnorte referido seja parte das inevitáveis 'dores de crescimento', e que se caminhe para uma situação em que Portugal venha a ter indicadores relativos a C&T menos terceiro-mundistas.

Nessa altura estará efectivamente integrado no sistema de C&T internacional.

Nessa altura também, uma 'metaquestão' que compartilhará é a da pressão exercida sobre os docentes universitários para apresentação de resultados de investigação, podendo - quando as coisas correm mal - conduzir a um frenesim de produção de papers irrelevantes que nunca ninguém lerá, medidos a peso na hora da verdade de concursos. Refere-se, a propósito, que o exercício em curso de avaliação da investigação nas universidades inglesas acabou com a contagem de artigos como critério; na mesma linha, nas candidaturas apresentadas ao NIH (US National Institutes of Health) os dados biográficos e lista de publicações não podem agora exceder duas páginas, ref.37.

 

 

 

Num estimulante artigo na Systems Research, (38), C. West Churchman, da Haas School of Business, UCBerkeley, denuncia a ciência irrelevante - ou, mais grave ainda, perniciosa - como um problema ético, num mundo afligido por enormes carências desatendidas, e formula o desafio '.... can we develop a science whose production and distribution process is well managed, that is, ethically managed?'.

O problema do ensino da ética da investigação é abordado na ref.39. Ainda que o respectivo autor seja biólogo, muitas das considerações feitas são relevantes em qualquer outro contexto da investigação. Um interessante comentário do autor é justamente que o curso ajuda os alunos a perderem a ilusão ingénua sobre a pureza da ciência e dos cientistas. É certamente uma pena - mas nunca é tarde para aprender ... .

 

 

 

Alguns links relativos a (ou com referência a) ética profissional na web

Finalmente, para aligeirar a possível seriedade do material acima, recomenda-se vivamente a visita a duas folhas do Prof. Charles Woodson, da UCBerkeley, tratando de problemas menores, 'quase-éticos': justificação de faltas, e reclamações dos alunos pelas classificações obtidas:

(URL's http://garnet.berkeley.edu/~cw/other/excuses.html , e http://garnet.berkeley.edu/~cw/other/gradechange.html , actualizadas em 6/6/1997)

 

 

Referências

1 P Madsen, 'Moral Mazes in Management', College Management Program, Carnegie Mellon University, 6-24 de Julho de 1992 (tema do dia 20 de Julho de 1992)

2 J Hankinson, 'O Especialista Instantâneo em Filosofia', (tradução de 'Bluff Your Way in Philosophy') Gradiva, Lisboa, 1996

3 M Markel, 'An Ethical Imperative for Technical Communicators', IEEE Transactions on Professional Communication, vol.36, (2), June 1993, pp.81-86

4 P M Dombrowski, 'Can Ethics be Technologized? Lessons from Challenger, Philosophy, and Rhetoric', IEEE Transactions on Professional Communication, vol.38, (3), Sept.1995, pp.146-150

5 T Donaldson, 'Values in Tension: Ethics Away from Home', Harvard Business Review, Sept./Oct. 1996, pp.48-62

6 P T de Castro, F M F Oliveira, A A Fernandes, 'Failure Analysis: a Methodology', aceite para publicação em: Technology, Law and Insurance, 1996.

7 B Panitz, 'Ethics Instruction: an Undergraduate Essential', ASEE Prism, Oct. 1995, pp.21-25

8 Ordem dos Engenheiros, 'Estatuto da Ordem dos Engenheiros aprovado pelo decreto-lei n.119/92 de 30 de Junho, publicado no Diário da República n.148 1ª série da mesma data; Regulamento de Admissão e Qualificação aprovado pela Assembleia de Representantes em reunião de 29 de Março de 1993', Lisboa, 1993

9 Ordem dos Engenheiros, 'Projecto de Código Deontológico', Lisboa, 1989

10 P C Wankat, F S Oreovicz, 'Teaching Engineering', McGraw-Hill, 1993

11 H Rosovsky, 'The University: an Owner's Manual', Norton, 1991

12 UCBerkeley, 'Resource: a Reference Guide for New Berkeley Students', 1996/97

13 Lehigh University, Rules and Procedures of the Faculty, Sept. 1991

14 decreto-lei nº448/79, de 13 de Novembro, com as alterações, por ratificação, introduzidas pela lei nº19/80, de 16 de Julho, em: M C da Silva, F S Almeida, 'Colectânea de Legislação Universitária', Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1984

15 A Oldenquist, 'Tenure: Academe's Peculiar Institution', em: S M Cahn, 'Morality, Responsibility, and the University: Studies in Academic Ethics', Temple University Press, Philadelphia, 1990, pp.56-75

16 R H Weingartner, 'Ethics in Academic Personnel Processes: the Tenure Decision', em: S M Cahn, 'Morality, Responsibility, and the University: Studies in Academic Ethics', Temple University Press, Philadelphia, 1990, pp.76-92

17 Purdue University, School of Technology, 'Faculty Handbook for Academic Promotion and Tenure', 3rd ed., Feb. 1995

18 P A Veslind, 'Using Academic Integrity to Teach Engineering Ethics', Journal of Engineering Education, January 1996, pp.41-44

19 A S Alschuler, G S Blimling, 'Curbing Epidemic Cheating Through Systemic Change', College Teaching, vol.43, (4), pp.123-125

20 C E Harris Jr, M Davis, M S Pritchard, M J Rabins, 'Engineering Ethics: What? Why? How? and When?', Journal of Engineering Education, April 1996, pp.93-96

21 R P Feynman, 'Nem Sempre a Brincar, Sr. Feynman', Gradiva, 2ª ed., 1994

22 Accreditation Board for Engineering and Technology, 'Engineering Criteria 2000' (for review and comment), January 1996

23 Ordem dos Engenheiros, 'Acreditação de Cursos - Manual para Uso do Júri', Maio de 1994

24 1º Congresso Português de Ética Empresarial, Associação Portuguesa de Management, Fundação Gomes Teixeira da Universidade do Porto, Faculdade de Economia da Universidade do Porto, Espinho, 24/5-25/5/1996

25 E L Boyer, 'Scholarship Reconsidered: Priorities for the Professoriate', The Carnegie Foundation for the Advancement of Teaching, Princeton, 1990

26 A Stoleroff, M T Patrício, 'A Prática Científica', em: J Correia Jesuíno, coord., 'A Comunidade Científica Portuguesa nos Finais do Século XX', Celta, 1995, pp.13-32

27 R E McGinn, 'Science, Technology and Society', Prentice Hall, 1991

28 Science, vol. 263, 7 January 1994, p.20

29 D E Buzzelli, 'The Definition of Misconduct in Science: a View from NSF', Science, vol. 259, 29 January 1993, pp.584-585 + 647-648.

30 H K Schachman, 'What is Misconduct in Science?', Science, vol.261, 9 July 1993, pp.148-149 + 183

31 L F Melo, P T de Castro, coords., 'Elementos para a Gestão da Ciência e Tecnologia', JNICT, 1996 (no prelo)

32 A P Águas, M T da Silva, Nuno R Grande, 'Produtividade Científica em Portugal de 1975 a 1989', Público, 20 de Dezembro de 1990

33 C Marciano da Silva, 'A Produção Científica de Portugal', em: J Mariano Gago, coord., 'A Ciência em Portugal', Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1991, pp.49-62

34  J Correia Jesuíno, coord., 'A Comunidade Científica Portuguesa nos Finais do Século XX', Celta, 1995

35 JNICT, 'Indicadores Bibliométricos de Produção Científica Portuguesa', número 1, Lisboa, 1996

36 Público, 29 de Outubro de 1996, p.24

37 Science, vol.264, 24 June 1994, p.1840

38 C West Churchman, 'Ethics and Science', Systems Research, vol.12, (4), 1995, pp.267-271

39 C E Deutch, 'A Course in Research Ethics for Graduate Students', College Teaching, vol.44, (2), pp.56-60

 

 

 

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Notas:

1 Interessados no video da ASME 'Questions for Discussion: Ethics in Action', 1992, podem contactar o autor desta 'page'.

2 links de numerosas associações profissionais podem ser obtidos em:

(http://garfield.fe.up.pt:8001/~ptcastro/MecEng.html) relocalizado em 21 de Janeiro de 1998 em: http://www.fe.up.pt/~ptcastro/MecEng.html

 

 

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© Porto, 29 de Outubro de 1996

comentários ou sugestões para melhorar ou corrigir este documento podem ser enviados para:

ptcastro@garfield.fe.up.pt

 

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Anexo: Mais exemplos de códigos éticos

 Institute of Electrical and Electronics Engineers (IEEE) Code of Ethics:

(Approved by the IEEE Board of Directors, August 1990)

We, the members of the IEEE, in recognition of the importance of our technologies in affecting the quality of life throughout the world, and in accepting personal obligation to our profession, its members and the communities we serve, do hereby commit ourselves to the highest ethical and professional conduct and agree:

 

 

 

Outro exemplo é o de uma associação técnico-científica, a ACM - Association of Computer Machinery, reflectindo as preocupações éticas específicas da generalização da utilização da informática em todos os domínios da vida. Embore extenso, este código é aqui transcrito na integra, dada a sempre crescente relevância dos problemas que aborda.

 

 

 

Association of Computer Machinery (ACM) Code of Ethics:

1. General Moral Imperatives.

As an ACM member I will . . .

2. More Specific Professional Responsibilities.

As an ACM computing professional I will . . .

3. Organizational Leadership Imperatives.

As an ACM member and an organizational leader, I will . . .

4. Compliance with the Code

As an ACM member I will . . .