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À CONVERSA COM… António Boucinha ( Embaixador Alumni FEUP em Lisboa)

É um dos embaixadores Alumni FEUP em Portugal. António Boucinha nasceu na Póvoa do Varzim, mas foi em Lisboa que construiu a sua vida. Licenciou-se em Engenharia Mecânica pela FEUP em 1976. Atualmente está aposentado, mas foi professor, passou pela Setenave (atual Lisnave) e terminou a carreira profissional na Tabaqueira. Fique a conhecer as aventuras do engenheiro mecânico, apaixonado por viagens, pela natureza e pela bricolage.

Como surgiu a oportunidade de ir para Lisboa?
Não sei se foi uma oportunidade, talvez tenha sido uma casualidade, surgida de contingências várias, como a procura de emprego, namorada em Lisboa, espírito aventureiro…
Vim para Lisboa em 1978. Concorri para dar aulas como professor efectivo na zona onde a minha namorada na altura, e agora minha mulher, se encontrava a trabalhar. Fui colocado no Seixal, na Escola Secundária das Cavaquinhas, actual Escola Secundária José Afonso, onde apenas leccionei até final de 1979, uma vez que optei pela carreira na indústria.

Passou por outras paragens depois de ter deixado a FEUP?
Anteriormente à vinda para Lisboa já tinha leccionado em Moncorvo, para onde concorri em 1975, porque uma amiga na altura me convenceu de que seria uma experiência interessante e que seria fácil chegar ao Porto para que pudesse frequentar as duas cadeiras que me faltavam para acabar o curso.
De seguida, e apenas com uma brevíssima experiência de docência, concorri para estágio de profissionalização no ensino, tendo em 1976 sido colocado em Elvas à frente de 4 engenheiros técnicos, 3 dos quais já quase no fim de longa carreira na docência. Desta estadia, além da importante evolução na carreira do ensino (muito à frente da maioria dos colegas de curso que tal como eu foram dar aulas), ficaram as memórias das constantes idas a Badajoz para diversão.
Posteriormente voltei à terra natal, Póvoa de Varzim, já como professor agregado na Escola Técnica, regressando à casa dos pais sete anos depois de ter saído em 1970, para estudar na Universidade. Em Coimbra, tinha frequentado os dois primeiros anos do curso de engenharia mecânica, no recentemente inaugurado edifício das matemáticas da Faculdade de Ciências, onde se tinham dado os acontecimentos que levaram à crise académica de 1969. Como em Coimbra não era possível, até essa altura, prosseguir os cursos de engenharia, que tinham de ser concluídos no Porto ou em Lisboa, optei em 1972 por ingressar na FEUP, no velho edifício da Rua dos Bragas.
Só depois de todas estas paragens é que vim para Lisboa onde me fixei até agora.

Como tem sido a sua experiência na Capital ao longo destes anos?
A minha experiência profissional na capital foi muito rica em termos profissionais e humanos. Primeiro, trabalhei na Setenave, antigos estaleiros navais de Setúbal e actual Lisnave, durante 4 anos. Depois fui para a Tabaqueira onde trabalhei 28 anos. Aqui, conheci duas fases bem diferentes: durante os primeiros 14 anos, conheci-a como empresa pública e nos 14 anos subsequentes como fábrica integrada numa grande empresa multinacional, a PM International. Apesar de já estar afastado de ambas há alguns anos mantenho a participação regular nos encontros de antigos colaboradores, onde me sinto muito bem a confraternizar e a partilhar muitos dos desafios profissionais e pessoais que todos continuamos a enfrentar.

Como correu a integração? Apesar de estar no mesmo país, houve desafios?
Desde os 17 anos, quando saí de casa dos pais pela primeira vez para estudar em Coimbra, fui-me habituando a mudar de casa e procurando adaptar-me a novas situações, algumas das quais tão bizarras que não me atrevo a descrevê-las. Indo viver para longe da família, tem de se procurar um local que nos traga o conforto que tínhamos na casa onde vivíamos, por isso comecei pelas casas de amigos até arranjar uma boa solução. Em Lisboa, tinha de manter a ligação à família e o mais difícil eram as longas viagens ao Norte, numa altura em que não havia quase nenhuns quilómetros de autoestrada. Logo na primeira véspera de Natal, levei mais de 12 horas a chegar a casa dos pais e, mesmo tendo saído de Lisboa pelas seis da manhã, não sei quantas vezes estive parado em longas filas que se formavam em dezenas de estrangulamentos na antiga estrada nacional 1 e quase não chegava a tempo da ceia.
A integração em Lisboa teve o seu quê de atribulado pois tendo sido colocado com um horário nocturno no Seixal, margem sul do Tejo, optei por viver em Lisboa, o que implicava deslocações diárias bem difíceis em transportes públicos ou bem caras em viatura própria. Poucos dias depois de chegar a Lisboa fui seleccionado para estagiar na Setenave, ao abrigo de um programa de integração de técnicos na indústria promovido pelo Ministério da Indústria. Passei assim a trabalhar de dia na Setenave, a 70 km de casa, e à noite na Escola do Seixal, situação essa que era de um esforço muito razoável, apesar da juventude dos meus 25 anos e que se prolongou por mais de um ano. O maior desafio na altura era decidir se continuava na carreira do ensino, onde já tinha atingido o topo (professor efectivo), e concorrer para ser colocado mais perto de onde já vivia com a minha mulher, em Odivelas, ou optar pela carreira na indústria, ganhando experiência na Setenave e posteriormente optar por outras experiências mais interessantes. A experiência de integração profissional na Setenave foi muito bem planeada e assegurada pela Escola de Formação da própria empresa. Durante 6 meses, o tempo de estágio, percorri grande parte dos sectores de projecto, produção e logística. Após esta experiência tão rica e interessante, optei por abandonar o ensino no final de 1979 e aceitar o desafio de trabalhar em projectos de desenvolvimento do estaleiro naval e posteriormente na área de manutenção.
A Setenave era na altura uma jovem empresa com um futuro muito incerto. Tinha sido planeada e projectada na época para responder aos problemas levantados pelo encerramento do canal do Suez. O plano da empresa era fabricar petroleiros com capacidade para vencer economicamente a longa rota do Cabo. Acabou por arrancar com a encomenda de 3 desses grandes navios em 1975, precisamente o ano em que o canal do Suez reabriu após a guerra dos 6 dias.
Para agravar mais essa situação, como a encomenda desses petroleiros de 300 mil toneladas tinha sido firmada em escudos por imposição do Governo, na altura de Marcelo Caetano, as dificuldades da empresa eram muitas e, como consequência da nacionalização da banca, também o estaleiro foi indirectamente nacionalizado. Apesar desses contratempos, e de haver muitas vezes ordenados com atraso de 3, 4 e 5 meses, trabalhei lá até ao final de 1982 em projectos muito interessantes, como por exemplo um sistema de rodar blocos de 500 toneladas e um estudo de aproveitamento de 2 toneladas de desperdícios diários. Face aos constantes ordenados em atraso, eram muitos, dos mais de sete mil trabalhadores da Setenave, a procurar sair da empresa, e entre eles especialmente muitos engenheiros. Não foi fácil escolher uma saída para uma empresa mais estável mas consegui e ingressei então na Tabaqueira.
A experiência na Tabaqueira foi ainda mais interessante pois, apesar de a empresa estar numa situação económica e financeira muito boa, os desafios que se colocavam à sua modernização eram imensos; tinha um parque de máquinas muito antigo, baseado em mão de obra intensiva e era necessário proceder à sua modernização e automatização. Desempenhei primeiro funções na área de manutenção, onde iniciei os primeiros esforços de modernização com a introdução de um programa de planeamento de manutenção em 1985 e, posteriormente, com um programa de aquisição de dados ( SCADA) de auxílio à produção e manutenção nas máquinas de alta velocidade recentemente adquiridas. O passo para assumir responsabilidades em 1992 na área de planeamento e controlo de produção surgiu naturalmente e foi o maior desafio colocado antes da privatização da Tabaqueira. O apoio ao desenvolvimento de programas de planeamento de produção e de materiais, bem como a elaboração de relatórios regulares de controlo dos principais KPI’s da produção, foram experiências que nunca mais esquecerei e que muito contribuíram para tornar claros os indicadores necessários para a fase de privatização que se preparava e que se concretizou em final de 1996. A experiência de trabalhar numa multinacional inserida num grupo com mais de 180 mil trabalhadores onde a partilha de objectivos, dificuldades ou melhorias era uma constante, mas onde a concorrência interna também o era, permitiu-me ter uma melhor compreensão dos problemas que se colocam hoje em dia a todas as empresas e a todos os trabalhadores.
A implementação de informação integrada com recurso ao sistema SAP permitiu-me dialogar com os serviços centrais na Europa, falar comas fábricas nos antigos países de Leste ou com os serviços partilhados na Ásia. Estas são realidades completamente diferentes umas das outras mas que se alinhavam para ultrapassar dificuldades que pareciam insuperáveis.

Por onde passam agora os seus objetivos/planos futuros?
Desde final de Setembro do ano passado que me encontro na reforma após ter atingido a idade legal e 44 anos de trabalho e os meus objectivos passam por me manter ocupado com novos desafios profissionais e pessoais. Manter a actividade como embaixador Alumni em Lisboa tem-me permitido estabelecer contactos muito importantes com colegas de todas as especialidades e actualizar-me nas novas tendências que despontam em áreas onde tenho curiosidade ou onde preciso de apoio. Participo como membro activo em iniciativas da comunidade local, nomeadamente a parceria “Viver Telheiras”, onde se desenvolvem pequenos projectos de colaboração entre instituições, comércio local, voluntariado, poupança de energia, etc… alguns dos quais foram já objecto de reconhecimento por entidades que os financiaram e os promoveram como exemplos para outras comunidades.
Nos últimos anos, tive a oportunidade de poder usufruir de uma pequena horta urbana a pouco mais de 100 metros de casa, inserida num projecto da Câmara Municipal de Lisboa e idealizado há muito pelo arquitecto Ribeiro Telles. Esta tem sido uma experiência totalmente nova e enriquecedora, pela partilha de conhecimentos práticos no campo da permacultura e da compostagem, pela troca de produtos, pelo alargamento de contactos e amigos, a que espero dar continuidade. Sublinho ainda o benefício da experiência e da proximidade do PermaLab da FCUL que foi e é um exemplo de como é possível reduzir significativamente a quantidade de resíduos sólidos urbanos e reduzir a logística onde as câmaras municipais consomem enormes recursos.

Dos tempos na FEUP, o que é que recorda com mais saudade?
Os longos e complicados cálculos com a régua de cálculo, com senos, co-senos, logaritmos e exponenciais; o fascínio das primeiras calculadoras com a sua álgebra polaca; a acanhada biblioteca muito frequentada; as noitadas na sala de projectos, com a famosa e única calculadora agarrada a uma mesinha com rodas para ser partilhada entre estiradores; as reuniões intermináveis a seguir ao 25 de Abril; os trabalhos oficinais que quebravam a monotonia das aulas teóricas e, finalmente, o polimento dos provetes de aços em disco de couro com pó de diamante que nos permitiam também polir os vidros dos nossos relógios. Também me lembro dos jogos de golfe no computador central carregados com uma fita perfurada, com indicação da força e do ângulo da tacada e das corridas de Fórmula 1 em papel quadriculado, com aceleração de uma unidade por jogada em pistas desenhadas de improviso.
Recordo também o trabalho na “Editorial Engenharia”, quando foi comprada a primeira máquina de fotocópias, que veio substituir as reproduções nas velhas máquinas de stencil e que revolucionou a feitura das antigas sebentas e a edição de comunicados da Associação de Estudantes de que fui membro da direção entre 1973 e 1974.
Em termos de ambiente geral, dividem-se praticamente em dois os tempos vividos na FEUP: antes e depois do 25 de Abril. Curiosamente estes dois diferentes ambientes já se reflectiam um pouco no ano de 1972, quando lá ingressei , pois o ambiente vivido nas aulas teóricas carregadas de alunos era muito convencional e formal, e onde o professor discorria com grandes lições. Em contraponto, o ambiente vivido nas aulas práticas, com jovens professores assistentes, era muito mais informal e muito atraente. Na FEUP, recordo o ambiente de liberdade de reunião e expressão que não conheci em Coimbra e que não se registava noutras escolas do Porto. Isso acontecia muito por força da determinação do Diretor da altura, Professor Joaquim Sarmento, que não deixava entrar a polícia nas instalações da Faculdade. Mas esse ambiente de liberdade não nos livrava do medo de ter um informador junto a nós, fosse colega, empregado ou professor. Mas mesmo assim, além das aulas viviam-se muitos outros eventos estimulantes como sessões de esclarecimento, divulgação de cartazes e comunicados sobre os mais diversos assuntos, quase sempre relacionados com lutas estudantis em outras escolas do Porto e, fundamentalmente, contra a guerra colonial, lutas que também abracei dando-lhe mais prioridade do que à conclusão do curso.
O facto mais inesquecível, para o curso de engenharia mecânica de 1970/75, que todos os anos, nos nossos encontros, é ainda tema de conversa, foi a tradicional visita de estudo às empresas de Lisboa entre 22 e 26 de Abril de 1974. As 3 primeiras visitas (Sorefame, Cometna e Lisnave) fizeram-se normalmente, mas a quarta (prevista para a empresa de construções metalo-mecânicas MAGUE) coincidiu com o dia 25 de Abril! A maioria decidiu cancelar a visita e muitos de nós logicamente fomos para o Largo do Carmo onde se desenrolou o principal acontecimento desse dia que mudou a vida de todos nós. No dia seguinte concluímos a visita de estudo com a ida à Siderurgia Nacional que terminou com o almoço na cantina onde num ambiente muito alegre festejamos os meus 21 anos e demos vivas ao 25 de Abril. Depois disso, recordo-me dos tempos que se seguiram com quase contínuas assembleias gerais para decidir o futuro da gestão da Faculdade e do tipo de ensino que se pretendia, face às perspectivas de um Portugal democrático, com discussões intermináveis e onde aprendemos regras de convivência democrática. Essas fervorosas discussões prolongavam-se pelos intervalos e às vezes pelas próprias aulas, mas levaram à criação de um espírito de transparência e solidariedade que se enraizou entre todos os estudantes e professores e que, apesar das diferenças ideológicas naturais, nos aproximou tanto que ainda hoje se mantém muita camaradagem.

E se voltasse ao passado, aos tempos de estudante, faria alguma coisa de diferente?
Claro que faria coisas diferentes, nomeadamente teria estudado muito mais, incluindo mais inglês, que na altura nem se considerava importante. Tive a curiosidade de me aventurar num estágio profissional promovido pela secção portuguesa do IAESTE ( https://iaeste.pt/iaeste/a-iaeste-portugal/) , em 1975 na Polónia e que, em parte, se poderá equiparar aos actuais programas Erasmus. Nessa altura o que me atraía era conhecer de perto os países da antiga cortina de ferro, mais do que a experiência profissional. Dessa experiência recordo a fábrica de construções metálicas Konstal, em Katowice, onde estagiei, e que recorria à velha técnica de rebitagem para a construir pontes e onde a soldadura era usada apenas na construção de veículos eléctricos para transportes públicos. Recordo também o contraste entre o ambiente cinzento e formal que se vivia na empresa e na TV um pouco parecido com o ambiente em Portugal do passado e o ambiente de alienação da juventude polaca com quem convivia na residência estudantil onde estava alojado. Certamente que deveria ter começado a fazer esses estágios mais cedo e assim conhecer melhor outra realidade que não a nossa, então ainda também muito fechada ao exterior.

Ser Embaixador Alumni significa no fundo retribuir algo à Faculdade em particular e à Universidade em geral. Como é que vê esta reaproximação à sua alma mater?
Curiosamente mantive-me muito ligado à faculdade, visitando regularmente o Departamento de Engenharia Mecânica e, mais tarde, o Departamento de Engenharia e Gestão Industrial, acompanhando o seu desenvolvimento e expansão, incluindo trabalhos indirectamente feitos para a empresa onde trabalhava, nomeadamente a simulação dos primeiros armazéns automáticos. Como entre os colegas do curso da Colheita 75 do DeMec muitos continuaram a dar aulas na FEUP e como os nossos encontros mantiveram alguma regularidade, também fomos sendo informados da evolução da Escola. No encontro comemorativo dos 25 anos, em 2000, tivemos a oportunidade de visitar as novas instalações no Campus da Asprela, cujos laboratórios estavam ainda com a montagem em curso. Até essa altura recebia também informação regular da Associação de Antigos Alunos do Departamento de Engenharia Mecânica (associação com a qual recentemente retomei de novo contacto depois de um longo interregno) que me mantinha informado sobre a evolução da FEUP. O desafio que me foi lançado para ser embaixador foi uma oportunidade que assumi com muito gosto e que contribuiu para a ideia de concretizar um velho sonho de quando vim para Lisboa que era o de juntar todos os que como eu, como nos dizem os lisboetas, foram atraídos pelas “luzes de Lisboa”.

Que desafio gostaria de colocar à FEUP e/ou à U.Porto?
Gostaria de tornar as faculdades e consequentemente a Universidade do Porto menos dependentes do Estado. Não sei bem como tal é possível mas uma via seria estabelecer colaboração com todos os antigos alunos, especialmente com aqueles que tiveram êxito nas suas iniciativas empresariais, para a criação de um fundo que fosse investido quer na formação contínua dos seus alumni, quer em encontros anuais que servissem para estabelecer laços profissionais, quer em projectos de cooperação ou de solidariedade nacional que promovessem a ligação da Universidade com a comunidade onde se insere. Gostaria também de desafiar todos os antigos alunos, que regularmente organizam encontros de curso, a que acrescentem valor aos seus encontros promovendo iniciativas de ligação à faculdade. Como exemplo, dou o caso do meu curso que, no encontro comemorativo dos 35 anos, abriu um concurso e atribuiu o prémio “Colheita 75” no valor de 5000 euros ao melhor projecto de engenharia mecânica que se candidatou. Espero também que esse prémio volte a ser atribuído quando comemorarmos os 50 anos da conclusão do curso.

Alumni, profissional, embaixador… que mais devemos saber sobre si? Partilhe connosco uma curiosidade para ficarmos a conhecê-lo melhor.
Espírito inquieto, adoro trabalhos manuais para sossegar. Gosto especialmente de tornear madeiras, preferencialmente de oliveira ou de camélia, madeira esta com a qual torneei as peças brancas do meu primeiro jogo de xadrez. Adoro caminhar em ambientes naturais, tendo percorrido inúmeros caminhos do interior das serras da Peneda, do Soajo e do Gerês guiado pelas “mariolas” e pelas antigas cartas militares. Coleccionador de assobios artesanais tenho agora mais tempo para reactivar o meu blog e convidar os amigos a escolherem o melhor assobio para dedicarem uma assobiadela a quem a merecer. Adoro bricolage, tendo-me aventurado até à difícil tarefa de reparação de quase todas as máquinas lá de casa e ao desencaminhamento e ajuda de amigos a fazerem o mesmo.

 

English Version

Talking to… António Boucinha (FEUP Alumni Ambassador in Lisbon)

He is one of the FEUP Alumni ambassadors in Portugal. António Boucinha was born in Póvoa do Varzim, but it was in Lisbon that he built his life. He graduated in Mechanical Engineering from FEUP in 1976. He is currently retired, but he was a teacher, worked at Setenave (now Lisnave) and ended up his professional career at Tabaqueira. Get to know the adventures of the mechanical engineer, a DIY enthusiast, passionate about travel and nature.

Can you tell us about your experience abroad and how did it happen?
I don’t know if it was an opportunity, maybe it was a casualty, arisen from various contingencies, such as job search, girlfriend in Lisbon, adventurous spirit… I came to Lisbon in 1978. I applied as an effective teacher in the area where my girlfriend at the time, and now my wife, was working. I was placed in Seixal, at Cavaquinhas Secondary School, now José Afonso Secondary School, where I only taught until the end of 1979, since I opted for a career in the industry.

Did you go to other places after leaving FEUP?
Before coming to Lisbon, I had already taught in Moncorvo, where I applied to in 1975, because a friend at the time convinced me that it would be an interesting experience and that it would be easy to get to Porto, so that I could attend the two courses that I needed to finish the degree. Then, and only with a very brief teaching experience, I applied for a professional training in teaching, and I was placed in Elvas, ahead of 4 technical engineers, 3 of whom were almost at the end of a long teaching career. From this stay, in addition to the important evolution in the teaching career (far ahead of most of the classmates who, like me, had chosen teaching), there were memories of the constant trips to Badajoz for fun. Later I returned to my homeland, Póvoa de Varzim, already as an aggregate teacher at Technical School, returning to my parents’ home seven years after leaving in 1970 to study at the University. In Coimbra, I had attended the first two years of the mechanical engineering course, in the recently inaugurated mathematics building of the Faculty of Sciences, where the events that led to the 1969 academic crisis had taken place. As in Coimbra it was not possible, until that time, to continue the engineering courses, which had to be completed in Porto or Lisbon, in 1972 I chose to join FEUP, in the old building at Rua dos Bragas. Only after all these stops, I came to Lisbon where I have settled so far.

How it has been your experience at the Capital over the years?
My professional experience in the capital was very rich in a professional and human level. First, I worked at Setenave, the former shipyards of Setúbal, nowadays Lisnave, for 4 years. Then I moved to Tabaqueira where I’ve worked for 28 years. There, I went through two very different phases: during the first 14 years, I knew it as a public company and in the following 14 years as a factory integrated in a large multinational company, PM International. Although I have been away from both companies for some years now, I maintain regular participation in meetings of former employees, where I feel very good at fraternizing and sharing many of the professional and personal challenges that we all continue to face.

How was the integration in Lisbon? Despite being in the same country, what were the main challenges?
Since I was 17, when I left my parents’ house for the first time to study in Coimbra, I got used to move house and to try to adapt to new situations, some of which are so bizarre I don’t dare to describe them. When we are going to live away from the family, we have to look for a place that brings us the comfort we had in the house where we lived, so I started with friends’ houses until I found a good solution. In Lisbon, I had to maintain my connection with the family and the most difficult thing was the long trips to the North, at a time when there were only a few kilometers of highway. Right on the first Christmas Eve, it took me more than 12 hours to get to my parents’ house and, even though I left Lisbon at 6AM, I still remember the long lines that were formed in the dozens of junctions on the old national road 1 and I barely arrived on time for the family dinner. The integration in Lisbon had its difficulties because I was placed with an evening schedule in Seixal, in the south bank of Tagus River, but I preferred to live in Lisbon, which implied difficult travels by public transport or expensive ones in my own car. A few days after arriving in Lisbon, I was selected to an internship at Setenave, under a program for the integration of technicians in industry promoted by the Ministry of Industry. I started working at Setenave at day time, 70 km from home, and in the evening at Seixal School, a situation that was a very reasonable effort for me, despite the youth of my 25 years, and that lasted for more than one year. The biggest challenge at the time was deciding whether to continue my career in teaching, where I had already reached the top (effective teacher), and apply to be placed closer to where I was already living with my wife, in Odivelas, or to pursue for a career in the industry, gaining experience at Setenave and subsequently opt for other more interesting experiences. The professional integration experience at Setenave was very well planned and ensured by the company’s own Training School. During 6 months the internship time covers a large part of the project, production and logistics sectors. After this very rich and interesting experience, I chose to abandon teaching at the end of 1979 and accepted the challenge of working on the development projects for the shipyard and later in the maintenance area.
Setenave was at the time a young company with an uncertain future. It had been planned and designed to answer to problems raised by the closure of the Suez Canal. The company’s plan was to manufacture oil tankers with the capacity to economically win the long route from the Cape. It ended up with an order for 3 of these big ships in 1975, precisely the year in which the Suez Canal reopened after the 6-day war. To make this situation worse, the order of these 300,000 tons oil tankers had been signed in Escudos by Government imposition, at the time of Marcelo Caetano, the company’s difficulties were many and, as a result of the nationalization of the banking sector, the shipyard was also indirectly nationalized.
Despite these setbacks, and although there were salaries paid with 3, 4 and 5 months delay, I worked there until the end of 1982 on very interesting projects, such as a system of rotating blocks with 500 tons and a study of the reuse of 2 tons of daily waste. Facing the constant delay in salaries, there were many out of more than seven thousand workers at Setenave, searching to leave the company and among them especially many engineers. It was not easy to choose a way out for a more stable company, but I succeeded and then I joined Tabaqueira.The experience at Tabaqueira was even more interesting: although the company was in a very good economic and financial situation, the challenges facing its modernization were huge; it had a very old machine park, based on intensive labor and it was necessary to modernize and automate it. I first worked in the maintenance area, where I started the first modernization efforts with the introduction of a maintenance planning program in 1985 and, subsequently, with a data acquisition program (SCADA) to help the production and maintenance of the high-speed machines that had recently been acquired. The next step came naturally in 1992 when I assumed the area of production planning and control and that was the biggest challenge before the privatization of Tabaqueira. The support for the development of production and material planning programs, as well as the preparation of regular control reports of the main production KPIs were experiences that I will never forget and that have contributed a lot to make clear the necessary indicators for the privatization phase, which was being prepared and occurred in late 1996. The experience of working in a multinational within a group of more than 180 thousand workers, where the sharing of objectives, difficulties or improvements were a constant, with a great internal competition, allowed me to have a better understanding of the problems that all companies and workers face nowadays.
The implementation of the integrated information using the SAP system put me in contact with central services in Europe, factories in the old countries of Eastern Europe or with shared services in Asia. These were completely different realities from each other but that were aligned to overcome difficulties that seemed impossible to overcome.

What are your future plans?
Since the end of September 2019 I am in retired after reaching the legal age and 44 years of work and my goals are to keep myself occupied with new professional and personal challenges. Maintaining my activity as an Alumni ambassador in Lisbon has allowed me to do networking with colleagues from all specialties and to keep up with the new trends that emerge in areas where I am curious or where I need support. I participate as an active member in local community initiatives, such as the “Viver Telheiras” partnership, where small collaborative projects are developed between institutions, local commerce, volunteering, energy saving, etc… some of which have already been recognized by entities that financed and promoted them as role models for other communities. In the last few years I had the opportunity to enjoy a small urban garden located just over 100 meters from my house, part of a project of the Lisbon City Council and idealized a long time ago by the architect Gonçalo Ribeiro Telles. This has been a totally new and enriching experience, by sharing practical knowledge in the field of permaculture and composting, by exchanging products, by expanding contacts and friends, which I hope to continue. I also emphasize the benefit of the experience and proximity of FCUL’s PermaLab, which was and is an example of the possibility to significantly reduce the amount of solid urban waste and reduce the logistic part on which city councils spend huge resources.

About the times in FEUP, what do you remember with more nostalgia?
The long and complicated calculations with the slide rule, with sines, cosines, logarithms and exponentials; the fascination of the first calculators with their Polish algebra; the small, crowded library; the evenings in the project room with the famous and unique calculator attached to a small table with wheels to be shared between drafters; the endless meetings the 25th of April; the practical classes that broke the monotony of theoretical classes and, finally, the polishing of steel sample pieces on a leather disk with diamond dust that also allowed us to polish the glasses of our watches. I also remember the golf games on the central computer loaded with a perforated tape, indicating the strength and angle of the shot and Formula 1 racing on squared paper, with acceleration of one unit per play on tracks drawn on the spur of the moment. I also remember the work at “Editorial Engenharia” when the first photocopy machine was bought, which came to replace the reproductions on the old stencil machines and which revolutionized the making of the old notebooks and the edition of press releases from the Student Association of which I was a board member from 1973 until 1974. In terms of the general environment, I remember the times experienced in FEUP before and after the revolution of the 25th of April. Interestingly, these two different environments were already reflected a little in 1972, when I started to study there, because the atmosphere lived in theoretical classes full of students was very conventional and formal, and where the professor lectured great lessons. In contrast, the environment in practical classes, with young assistant professors, was much more informal and very attractive. At FEUP, I remember the atmosphere of freedom of gathering and of speech that I did not know in Coimbra and that was not felt in other schools in Porto. This happened a lot due to the strength and determination of the Dean at the time, Professor Joaquim Sarmento, who did not let the police enter the Faculty facilities. But this environment of freedom did not release us from the fear of having an informant among us; it could be a colleague, an employee or a teacher. Even so, in addition to the classes, there were many other stimulating events, such as information sessions, posters and announcements on the most diverse subjects, often related to student struggles from other schools in Porto and fundamentally against the colonial war, struggles that I also embraced giving them more priority than finishing the degree. The most unforgettable fact for the mechanical engineering course of 1970/75, that is still a topic of conversation every year in our meetings, was the traditional study visit to Lisbon companies between 22nd and 26th April 1974. The first 3 visits (Sorefame, Cometna and Lisnave) took place normally, but the fourth (planned for the metal-mechanical construction company MAGUE) coincided with the 25th of April! Most of us decided to cancel the visit and many of us logically went to Largo do Carmo where the main event of that day took place and changed our lives. The next day we concluded the study visit with a trip to the Siderurgia Nacional that ended with a lunch in the canteen where we celebrated my 21st birthday in a very happy atmosphere and gave cheers to the 25th of April. After that, I remember the times that followed with almost continuous general assemblies to decide the future of the Faculty’s management and the type of education that was intended, facing the perspectives of a democratic Portugal, with endless discussions and where we learned rules of democratic coexistence. These fervent discussions went on in-between lessons and sometimes even into classes, but led to a spirit of transparency and solidarity that rooted among all students and Professors and that, despite natural ideological differences, brought us so close that even today we maintain the camaraderie.

And if you go back to the past, when you were a student, would you do something different?
Of course I would have done some things different, namely I would have studied much more, including more English, which at the time was not even considered important. I was curious to venture myself into a professional internship promoted by the Portuguese section of IAESTE (https: //iaeste.pt/iaeste/a-iaeste-portugal/), in 1975 in Poland and which, in part, can be compared to the current Erasmus program. At that time, what attracted me was to get to know the countries of the old iron curtain, more than the professional experience. From this experience I recall the Konstal metal construction factory in Katowice, where I was an intern and which used the old riveting technique to build bridges and where welding was only used in the construction of electric vehicles for public transport. I also remember the contrast between the gray and formal environment that was felt in the company and on TV, a little similar to the environment felt in a Portugal from the past, and the alienation environment of the Polish youth with whom I lived in the student residence where I was staying. Certainly, I should have started doing these internships earlier, to get to know another reality different from ours, that was also still very closed to the outside.

Being an Alumni Ambassador means to give something back to the Faculty in particular and the University in general. How do you see this closer connection to your “alma mater”?
Interestingly, I remained very connected to the faculty, regularly visiting the Department of Mechanical Engineering and, later, the Department of Industrial Engineering and Management following its development and expansion, including works done indirectly for the company where I worked, namely the simulation of the first automatic warehouses. As among colleagues from the class from ´75 at DeMec, many continued to lecture at FEUP and as our meetings continued to be regular, we were also informed of the School’s evolution. At the 25th anniversary celebration, in 2000, we had the opportunity to visit the new facilities on the Asprela Campus, whose laboratories were still under construction. Until that time I also received regular information from the Alumni Association of the Department of Mechanical Engineering (an association with which I recently resumed contact after a long break) that kept me informed about FEUP’s evolution. When I was challenged to become a FEUP Alumni Ambassador I took it with great pleasure and that contributed to the idea of making an old dream come true from when I came to Lisbon: to bring together all those like me who were attracted by the “Lisbon lights”, as the people living in Lisbon use to tell us.

What challenge would you like to propose to FEUP and / or to U.Porto?
I would like to make the faculties and, consequently, the University of Porto less dependent on the State. I am not sure how to do this, but one way could be to set collaboration with all the alumni, especially those who have been successful in their entrepreneurial initiatives, to create a fund that could be invested either in the alumni ongoing training or in annual networking meetings, whether in cooperation or national solidarity projects that promote the connection of the University with the local community. I would also like to challenge all alumni, who regularly organize course reunions, to add value to their meetings by promoting initiatives with connection to the faculty. As an example, in the 35th commemorative reunion anniversary, we opened a competition and gave the “Class from 75” award in the amount of 5000 euros to the best mechanical engineering project that applied for. I also hope that this prize will be awarded again when we celebrate the 50th anniversary of the degree conclusion.

Alumni, professional, ambassador … what else should we know about you? Share with us a curiosity so we can know you better.
Restless spirit, I love to do crafts to calm down. I especially like turning wood, especially from olive wood or camellia, with this last one I turned the white pieces of my first chess game. I love to walk surrounded by nature, having travelled countless tracks in the Peneda, Soajo and Gerês mountains guided by the “mariolas” and the old military maps. Collector of handmade whistles I have now more time to reactivate my blog and invite friends to choose the best whistle and to dedicate a whistle to whom deserves it. I’m a DIY enthusiast, having ventured to the difficult task of repairing almost all the machines at home and to mislead and help friends to do the same.

The advice to FEUP students (On Video)
I would like to give you three main advices. Take advantage of your time at faculty to invest, not only in the acquisition of technical and scientific knowledge, but also to establish very good human relations with colleagues, with Professors, with researchers. This investment in human relations is an investment for the future. I would like to give another advice to those who have problems or some difficulty in finishing the degree because mechanics or chemistry was not exactly what they wanted, they might even wanted to go to another faculty, but think that if you already invested two or three years in a course it is very important to finish it quickly because a degree is a driving license for life. After taking the degree and completing it quickly you can pursue your professional activity or take the course you would like, but you already have the driving license to move on with your life. One last advice. When we start working in the companies or organizations we take all the knowledge acquired in the faculty, but 5 or 10 years after that knowledge is already reduced and we need to update ourselves, maintain good relations with the faculty and update this knowledge. This relationship with the faculty is important, because we also need to transmit the companies’ problems, from organizations to the faculty, so that they can study them, investigate them and come up with solutions. In all the activities in the faculty, outside the faculty, in sports, in cultural activity, don’t forget to invest in good human relations. Thank you!