Numismática

História ilustrada por moedas

As moedas permitem ilustrar muitos factos históricos, o que me motivou a procurar reunir exemplares que, pela sua associação a figuras ou acontecimentos que acho relevantes, me permitem trazer um pouco de História para dentro de casa.

Os Persas tiveram um papel muito relevante nos alvores dos tempos históricos. Este sigloi de prata, do século V a. C., apresenta no anverso o Grande Rei (i.e., Dario) como arqueiro, ajoelhando à direita, segurando arco e lança. No reverso, uma marca de punção oblonga.

Os Fenícios, pelas suas navegações e entrepostos comerciais e pela invenção do alfabeto, deixaram-nos um legado valiosíssimo, tanto mais que influenciaram directamente os povos que habitavam o território que havia de ser Portugal. Este 1/3 de stater de prata, de Arados, Fenícia, data de cerca de 400 a 350 a. C., e representa no anverso uma cabeça de divindade barbada.

Alexandre Magno (356 - 323 a. C.) é uma das figuras mais impressionantes da Antiguidade Clássica. Conquistou a Grécia, a Pérsia, o Egipto, a Babilónia, etc., criando um império de dimensão sem precedentes. Este dracma de prata, da Macedónia, séc. IV a. C., representa no anverso a cabeça de Alexandre como o jovem Heracles; no reverso, Zeus no trono com águia e ceptro.

Cartago, cidade do Norte de África (actual Tunísia), fundada pelos fenícios cerca de 814 a. C., tornou-se mais tarde num extenso império colonial, cujo apogeu se verificou entre a segunda metade do século VI e os princípios do século V a. C.. A moeda, de bronze, foi cunhada na Sardenha entre 300 e 261 a. C., exibe no anverso a cabeça de Tanit com coroa de espigas e no reverso uma cabeça de cavalo.

Alexandre conquistou o Egipto aos persas, mas morreu em 323 a. C.. O seu general Ptolomeu toma conta do Egipto e proclama-se rei em 304, fundando uma dinastia que se prolongou por 3 séculos (à qual pertenceu Cleópatra). Sucedeu-lhe seu filho Ptolomeu II, rei de 283 a 246 a. C., a cujo reinado pertence este tetradracma de prata, que mostra no anverso a cabeça de Ptolomeu I e no reverso uma águia e raios.

Júlio César (100 - 46 a. C.) é outra figura extraordinária da Antiguidade Clássica. Este denário forrado, cunhado em 47 ou 46 a. C., representando no anverso a cabeça de Vénus e no reverso Eneias, é um exemplar interessantíssimo, que ilustra bem que as histórias de desvalorização da moeda são muito mais antigas do que se pode supor.

As moedas de prata, em geral, não são feitas de prata pura, mas de uma liga de prata e cobre. Quanto menor for o teor de prata, menor será o custo da sua produção. Se o povo não se aperceber da diferença, tomará a moeda como boa, i.e., como se de prata pura se tratasse. O problema é que ao diminuir fortemente o teor de prata, a cor da moeda começa a perder a cor característica da prata. Do ponto de vista da estrutura da liga, há também uma diferença importante: rompe-se a natureza cristalina da associação entre os átomos dos dois metais, verificando-se a formação de "cachos" de átomos de prata no interior da liga essencialmente constituída por cobre.

Se atacarmos a superfície de uma rodela deste material com um ácido brando, por exemplo, sumo de limão, o cobre é corroído enquanto a prata resiste. Desta forma, a superfície adquire o aspecto de pequenas "ilhas" de prata num "mar" de cobre. Se, em seguida, uma rodela destas for batida entre dois cunhos, a prata emergente esborracha cobrindo o cobre e assegurando um aspecto uniforme prateado.

Assim se produz um denário forrado! Certamente, os romanos do séc. I não sabiam explicar em pormenor o fenómeno descrito, mas que eram capazes de fazer esta aldrabice ... lá isso eram! Esta moeda, como apresenta já alguma deterioração do revestimento, não deixa dúvidas àcerca da natureza da liga utilizada.

Marco António (82? - 30 a. C.) integrou o segundo triunvirato, com Octaviano e Lepidus, após a morte de César, mas é provavelmente mais conhecido pelos seus amores com Cleópatra. Este denário de prata tem no anverso a efígie de Marco António e no reverso a de Octaviano.

Octaviano (63 a. C. - 14 d. C.), sobrinho-neto de César, começou por se chamar Octávio e tornou-se o senhor incontestado de Roma, após a derrota (31 a. C.) e o suicídio (no ano seguinte) de Marco António e Cleópatra. Em 27 a. C. foi-lhe concedido o título de Augusto, nome pelo qual é mais conhecido. Este evento é geralmente aceite como marcando o início do período imperial de Roma.

Este lepton de bronze, cunhado na Judeia, sob o domíno romano, no séc. I, é uma moeda muito pobre, mas de rico significado para os cristãos. É que foi cunhado por Pôncio Pilatos, procurador romano da Judeia de 26 a 36, sob Tibério (42 a. C. - 37 d. C.), que sucedeu a Augusto em 14 d. C.. É pois uma moeda contemporânea de Jesus Cristo.

Este tetradracma de prata do séc. I, cunhado para circular na Síria e Antióquia, sob o domínio de Roma, tem a curiosidade de representar no anverso a cabeça do imperador romano, o tristemente célebre Nero, nascido em 37 e que reinou de 54 a 68, quando se suicidou.

Na sequência da queda do Império Romano do Ocidente, a Península Ibérica foi objecto de sucessivas invasões de tribos germânicas. Após a conquista do reino suevo, em fins do séc. VI, os visigodos tornaram-se senhores de toda a Península, até à sua invasão pelos muçulmanos, em 711.

Este triente ou pequeno tremissis de ouro foi cunhado em Emerita (Mérida), Lusitânia, no reinado de Sisebuto, rei de 612 a 621. Um aspecto curioso da numismática visigoda é que foi cunhado apenas este tipo de moeda!

Carlos Magno (742 - 814), rei dos Francos e dos Lombardos, imperador do Ocidente, mandou cunhar este denier de bolhão, liga pobre de prata.

Este dirhem de prata, de Al-Andalus, a parte da Península Ibérica sob domínio muçulmano, foi cunhado em 812, no reinado de Al-Háqueme I, emir de Córdova (796 - 822).

 

Afonso VI, o Bravo (1030 - 1109), avô de Afonso Henriques, mandou cunhar este dinero de prata em Toledo (conquistada em 1085). Filho de Fernando Magno, que dividiu o reino de Leão e Castela pelos cinco filhos, conseguiu apossar-se dos vários territórios e reunificar o reino em 1073. Nas suas campanhas contra os mouros teve o auxílio militar do Cid, o Campeador.

Genghis-khan, que significa "O maior dos governantes" ou "Imperador de todos os homens", nasceu cerca de 1155 e morreu em 1227. Iniciou a expansão mongol que haveria de dominar a maior parte da Ásia e ameaçar a Europa. Este jital de bronze, do tipo Ghanzi, foi cunhado entre 1220 e 1227.

Este dirham de prata, cunhado na Terra Santa pelos cruzados entre 1216 e 1235, concretamente com data de 1234, é uma moeda verdadeiramente curiosa. De facto, esta moeda, cunhada por cristãos, a fim de ser aceite, copia as moedas árabes, mas é ilustrada com a estrela de David! Um verdadeiro exemplo de ecumenismo!

Afonso X, o Sábio, poeta e homem de grande cultura, foi rei de Castela e Leão (1252-84) e imperador do Ocidente (1258-72). Avô do nosso D. Dinis, foi aliás na sua corte que o nosso rei poeta foi educado. É do seu reinado este dinero de bolhão.

Esta moeda portuguesa de bolhão, infelizmente danificada, chama-se barbuda devido ao aspecto da efígie real nela representada. Tem uma particularidade de grande significado para mim, que me orgulho de ser tripeiro; é que foi cunhada no Porto! O rei é D. Fernando I (1367-83).

Este groat (4 pence) de prata, Inglaterra, é do reinado de Edward III e foi cunhada em Londres entre 1312 e 1377. Fazia parte do tesouro de Reigate, enterrado em 1450 e descoberto nos anos 90 do século XX, em Reigate, Surrey. A particularidade mais especial para mim é, contudo, o facto de Edward III ter sido pai de John Gant, duque de Lencastre, avô de D. Filipa de Lencastre e, portanto, bisavô do meu conterrâneo Infante D. Henrique!

 

Este vintém de prata foi também cunhado no meu Porto! É do reinado de D. Manuel I, o Venturoso (1469 - 1521), rei de Portugal desde 1495.

Henrique VIII, rei de Inglaterra de 1509 a 1547, independentemente de duas medidas políticas que haveriam de se mostrar de grande relevância para o futuro do seu país (a opção por uma grande força naval e o lançamento das bases de uma indústria de lanifícios), ficou célebre por ter fundado o Anglicanismo e pelas suas relações maritais: casou com seis mulheres e mandou decapitar duas! Este groat de prata foi cunhado entre 1526 e 1544.

 

Este real de prata, de 1628, é uma moeda espanhola do reinado de Filipe IV (Filipe III de Portugal). Sobre o escudo de Espanha é possível ver (mal) um pequeno escudo de Portugal, indicando que o nosso país estva anexado ao trono espanhol.

Não se pode dizer que esta moeda seja muito "brilhante", mas o rei representado é mesmo o Rei Sol, Luís XIV de França! A moeda é um 1/4 écu aux couronnes, de prata, cunhada em 1711.

Nesta galeria de personagens que fizeram história não podia faltar Napoleão Bonaparte! Esta moeda de prata de 5 francos, cunhada em 1811, já viu dias melhores mas não deixa de ilustrar razoavelmente o grande cabo-de-guerra!

 

Todas as imagens desta secção reproduzem moedas minhas e foram digitalizadas directamente (i.e., simplesmente pousadas sobre a janela do scanner) por mim. Todos os direitos de utilização destas imagens estão reservados.

Ó 2002-2004 Franclim Ferreira.

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