Numismática

Metais

Após as primeiras moedas de electro cunhadas pelos gregos na Lídia no séc. VII a. C., a emissão de moeda generalizou-se a todo o mundo grego na centúria seguinte. O metal inicialmente mais usado foi a prata. Só nos meados do séc. V a. C. Atenas cunhou as primeiras moedas de ouro e nos fins do mesmo século apareceram as primeiras moedas de bronze, na Macedónia e na Trácia. Todavia, durante o séc. IV a. C. a prata manteve-se o metal dominante na cunhagem de moedas.

Não admira que o ouro se tornasse progressivamente o metal mais apreciado, quer nas moedas, quer na joalharia, dada a sua estabilidade e, principalmente, a sua grande beleza. Na verdade, torna-se difícil perante algumas moedas dizer se se trata de uma moeda ou de uma jóia, como é o caso da belíssima Peça de D. João VI, de 1822, de ouro de 917 milésimas. Aliás, é bem conhecida a prática de usar moedas de ouro em jóias diversas.

É curioso verificar que o ouro, em liga com a prata, impõe a sua cor, mesmo com um teor tão baixo como é o caso desta curiosa moeda japonesa de 2 bu, cunhada em 1868/9, que tem apenas 22,3% de ouro e 77,7% de prata.

Por outro lado, e por muito surpreendente que possa parecer, as três moedas ao lado representadas têm exactamente o mesmo teor de ouro: 91,7%! Por outras palavras, são os restantes 8,3% de outro(s) metal(ais) que justificam a pronunciada diferença de cor.

A moeda da esquerda é um soberano (a popular libra d'ouro), cunhado em 1989 para comemorar os 500 anos da emissão do primeiro soberano de ouro, por Henrique VIII de Inglaterra. Foi usada a mesma liga, denominada ouro vermelho, com 8,3% de cobre. A moeda ao centro, 5000 réis de 1863, D. Luiz, Portugal, é a mais esbranquiçada das três, provavelmente por os restantes 8,3% serem de prata. Finalmente, a moeda da direita é outro soberano do Reino Unido, raínha Vitória, 1855. Nesta, os restantes 8,3% são talvez de prata e cobre.

Apesar da superioridade do ouro, a prata não deixa de ser um metal muito belo e apreciado, que permite obter resultados magníficos, como é o caso desta moeda de 960 réis do Brasil português de 1814, de prata de 896 milésimas.

Note-se, entretanto, o amarelecimento do anverso devido à oxidação superficial.

 

São frequentes, contudo, as emissões de moedas de prata com teor degradado, o que não pode deixar de se reflectir na cor e brilho do metal, como se pode notar nas moedas abaixo figuradas.

Da esquerda para a direita:

- União Sul Africana, 2 1/2 shillings, 1942, 800 milésimas

- Austrália, 1 florin, 1951, 500 milésimas

- Somália, 1 somalo, 1950, 250 milésimas

 

Nas últimas décadas, as autoridades monetárias têm multiplicado esforços para seduzir os coleccionadores de moedas, produzindo espécimes em metais nobres menos usados como é o caso da platina e do paládio.

Por exemplo, a moeda à esquerda (em imagem ampliada), mandada cunhar pela Ilha de Man, em 1991, é um 1/10 Noble de platina de 999 milésimas.

O paládio, para além das suas aplicações industriais como catalizador de reacções de hidrogenação e desidrogenação, é também utilizado em joalharia em ligas com outros elementos (por exemplo, o chamado ouro branco é uma liga de ouro e paládio).

A moeda ao lado, cunhada pelas Bermudas em 1987, contém uma onça de paládio de 999 milésimas e tem acabamento proof.

Pode-se pensar que só com metais nobres se podem realizar moedas de grande beleza. Nada mais errado!

Senão, atente-se neste espectacular "patacão" com quase 50 gramas de cobre (para referência, note-se que a mais pesada das nossas moedas, a de 2 , não passa dos 9 gramas)!

Foi cunhada em 1789, na Rússia Imperial de Catarina II.

Outro magnífico exemplo é esta bela moeda de alumínio de 5 pengo, cunhada na Hungria, em 1943 (ano de excelentes colheitas, como é sabido! Nasci eu!).

Além dos metais nobres, vários outros elementos têm sido usados para cunhar moedas:

Cobre

Alumínio

Níquel

Zinco

Estanho

Índia Britânica

Laos

Líbano

Croácia

Tailândia

Índia Britânica, 1/4 anna, 1889; Laos, 20 cents, 1952; Líbano, 1 livre, 1980; Croácia, 2 kune, 1941; Tailândia, 1 satang, 1942.

O cobre, o alumínio e o níquel são de extensa utilização. O zinco foi especialmente utilizado durante as Guerra Mundiais, devido, certamente, à carência de outros metais necessários ao esforço de guerra. O estanho é tão raramente usado, que apenas conheço a moeda ilustrada.

Finalmente, o ferro é também de uso muito raro, que eu saiba apenas durante as Guerras, como é o caso da nossa moeda de 2 centavos, de 1918, ao lado.

Mas, mesmo quando se pretende fabricar uma moeda de um só elemento, a verdade é que o resultado é sempre uma liga. Por outro lado, de há muito que o Homem compreendeu as vantagens de vária ordem das ligas metálicas. Não admira, pois, que muitas ligas metálicas sejam utilizadas para fabricar moedas. Tantas que as pessoas comuns (entenda-se, não interessadas nestas questões) nem suspeitam!

Naturalmente, toda a gente se apercebe de que há moedas "brancas", "amarelas" e "escuras" (ou "vermelhas", quando novas). Daí que eu tenha optado por classificar as diversas ligas por essa característica tão evidente.

Das ligas brancas, a mais universalmente utilizada é, certamente, o cupro-níqel, uma liga de cobre e níquel. Eram desta liga, por exemplo, as nossas antigas moedas de 20$ e 50$. É curioso notar que, apesar dos 75% de cobre, são os 25% de níquel que impõem a cor!

Os revestimentos são hoje muito utilizados e resultam do constante esforço de redução dos custos de produção, procurando seja preservar o aspecto tradicional da moeda, seja usar exteriormente um metal mais resistente à corrosão.

Distinguem-se essencialmente duas técnicas: o revestimento electrolítico (referido em inglês como plated, que designarei adiante, por exemplo, como cobre niquelado) e o revestimento mecânico (referido em inglês como clad, realizado, em geral, por laminagem, e que designarei, por exemplo, como aço revestido a níquel, ou abreviadamente, aço rev. níquel). Encontrei menção a um eventual terceiro tipo de revestimento, designado em inglês por coated, que não sei a que processo tecnológico corresponde.

Cupro-níquel

Cu Ni magnética

Níquel-bronze

Cu Ni Zn

Coreia do Norte

Tanzânia

Moçambique

Malawi

Coreia do Norte, 5 won, 1987, proof;  Tanzânia, 5 shilingi, 1991; Moçambique português, 1 escudo, 1950; Malawi, 1 florin, 1964.

Aço

Aço inoxidável

Aço - crómio

Níquel - aço

Est. Áfr. Ocidental

Nepal

França

Luxemburgo

Estados da África Ocidental, 1 franco, 1980; Nepal, 50 paisa, 1988; França, 5 cêntimos, 1962; Luxemburgo, 1 franco, 1991.

Ferro niquelado

Cobre niquelado

Aço niquelado

Aço zincado (coated)

Bélgica

África do Sul

Namíbia

Estados Unidos

Bélgica, 1 franco, 1989; África do Sul, 2 rands, 1991; Namíbia, 50 cents, 1993; USA, 1 cent, 1943, aço zincado (coated).

Cobre rev. Cu Ni

Níquel rev. Cu Ni

Aço rev. Cu Ni

Latão rev. Cu Ni

Suécia

Rep. Fed. Alemanha

Líbia

Hungria

Suécia, 1 coroa, 1978; Rep. Fed. Alemanha, 5 marcos, 1983; Líbia, 10 dirhams, 1985; Hungria, 50 forint, 1993.

Cu Ni rev. níquel

Aço rev. níquel

Mónaco

China

Mónaco, 5 francos, 1982; China, 1 yuan, 1991.

Das ligas amarelas, a mais conhecida é, sem dúvida, o latão, essencialmente constituído por cobre e zinco, embora possa ter pequenas adições de outros metais para apurar certas características. Dito isto, resulta um pouco estranho aparecer uma liga referenciada nos catálogos como cupro-zinco!

Analogamente, suspeito que alumínio-bronze (ou bronze-alumínio) e bronzital sejam a mesma liga, a menos de alguma diferença de proporções. O bronzital é uma liga exclusiva da Casa da Moeda Italiana, da qual desconheço a constituição.

Latão

Cupro-zinco

Níquel-latão

Alumínio-bronze

Bronzital

Myanmar

China

Hong Kong

Tailândia

Itália

Myanmar (Birmânia), 50 pyas, 1975; China, 5 jiao, 1981; Hong Kong, 10 cents, 1988, acabamento brilhante não circulada; Tailândia, 50 satang, 1980; Itália, 200 liras, 1989.

Cu Al Ni

Alumínio-latão

Virénio (?)

Cu Al Zn

Israel

Suíça

Gibraltar

Suécia

Israel, 1/2 sheqel novo, 1992; Suíça, 5 rappen, 1981; Gibraltar, 2 libras, 1991; Suécia, 10 coroas, 1991.

De referir também a existência de revestimentos vários.

Aço latonado

Níquel bronzeado*

Aço rev. latão

África do Sul

Canadá

Guiné

África do Sul, 50 cents, 1991; Canadá, 1 dólar, 1988, níquel bronzeado (*dourado - em inglês aureate bronze); Guiné, 10 francs, 1985.

As ligas vermelhas, que tendem a ficar escuras com o uso e a oxidação, devem a sua cor ao cobre. A mais comum (desde há milénios) é, evidentemente, o bronze.

Tradicionalmente, uma liga de cobre e estanho, o bronze é actualmente uma designação genérica de ligas com adição de outros elementos que, em catálogos numismáticos, umas vezes são explicitadas e outras não.

Assim, não admira que a moeda ao lado, de 1 dólar, da Samoa Americana, 1988, apareça nos catálogos como sendo de bronze, apesar da sua cor amarela!

Outro exemplo, a moeda da Dinamarca a seguir representada, de cor manifestamente diferente da moeda de Myanmar, apareceu inicialmente como sendo de uma liga de cobre, zinco e estanho, mas actualmente é referida como sendo, simplesmente, de bronze! Dada a diferente natureza destas ligas, não é de admirar a diferença de cores que exibem.

Também nas moedas com este aspecto se usam diversas técnicas de revestimento.

Bronze

Bronze (Cu Zn Sn)

Cupro-zinco*

Zinco-cobre*

Ferro cobreado

Myanmar

Dinamarca

Estados Unidos

Estados Unidos

Letónia

Myanmar, 25 pyas, 1980; Dinamarca, 50 ore (centavos), 1990; Estados Unidos, 1 cent, 1976 proof (*liga de 95% Cu e 5% Zn - note-se que o latão também é uma liga de cobre e zinco!); Estados Unidos, 1 cent, 1988 (*trata-se, provavelmente, de uma liga onde o zinco predomina sobre o cobre. Creio que em catálogo anterior se referia que a partir de 1982 houve mudança da liga. Actualmente, aparece apenas a indicação da existência de duas ligas em 1982!); Letónia, 1 santims (centavo), 1992.

Aço cobreado

Zinco cobreado

Aço bronzeado

Aço rev. cobre

Aço rev. bronze

Turcomenistão

Baamas

Ilhas Salomão

Malásia

Roménia

Turcomenistão, 10 tennessi, 1993; Baamas, 1 cent, 1989 (imagem ampliada); Ilhas Salomão, 1 cent, 1987; Malásia, 1 sen, 1982; Roménia, 1 leu, 1993; 

Nos anos 80, do século passado, apareceram ligas de cobre de cor mais escura (provavelmente, devido à presença de níquel), com composições diversas. No caso da moeda holandesa, a cor do bronze utilizado no revestimento deve-se talvez simplesmente à natureza da liga, cuja composição não é revelada.

Cu-Ni-Al

Ni-Al-bronze

Níquel-bronze

Níquel rev. bronze

Mónaco

Mónaco

França

Países Baixos

Mónaco, 10 francos, 1982; Mónaco, 10 francos, 1989; França, 10 francos, 1988 (esta moeda aparece agora com a indicação de ser de alumínio-bronze, mas a sua cor é manifestamente diferente de outras moedas referidas como sendo dessa liga); Países Baixos, 5 florins, 1994.

Finalmente, nas duas últimas décadas do séc. XX, assistiu-se ao advento das moedas bimetálicas, numa tentativa (pelos vistos, compensadora) de combater as falsificações. São várias as combinações utilizadas, indicadas a seguir da periferia para o interior. Acmonital é uma liga (da Casa da Moeda Italiana) da qual desconheço a constituição.

Cu Ni + latão

Cu Ni + Al-bronze

Cu Ni + Al-bronze

Acmonital + bronzital

Aço inox+Al-bronze

Gana

Rússia

Rússia

Itália

Marrocos

Gana, 100 cedis, 1991; Rússia, 10 rublos, 1993; Rússia, 10 rublos, 1992 (notar a diferença de cor da anterior); Itália, 500 liras, 1993; Marrocos, 5 dirhams, 1987.

Aço cobr. + aço lat.

Latão + Cu Ni

Al-bronze + Cu Ni

Al-bronze + aço

Al-bronze + prata

Rep. Checa

Irão

Rússia

Mónaco

México

Rep. Checa, 50 korun, 1993 (aço cobreado + aço latonado); Irão, 250 rials, 1993; Rússia, 100 rublos, 1992; Mónaco, 10 francos, 1989; México, 10 novos pesos, 1992.

 

Todas as imagens desta secção reproduzem moedas minhas e foram digitalizadas directamente (i.e., simplesmente pousadas sobre a janela do scanner) por mim. Todos os direitos de utilização destas imagens estão reservados.

Ó 2002-2004 Franclim Ferreira.

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