Sistemas de Informação na Construção:Ineficiência na gestão da informação: alguns sintomas

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Sintomas

A gestão da informação na construção é frequentemente criticada por ser considerada relativamente ineficiente e por usar ferramentas por vezes pouco sofisticadas em comparação com o que sucede com outras áreas industriais. Importa analisar esta observação, procurando identificar sintomas de gestão da informação não optimizada, deixando para um capítulo posterior a discussão das possíveis soluções para este aparente atraso do sector da construção.

Foram encontradas na bibliografia estimativas que indicam que os custos devidos ao desperdício resultante da divisão de processos e de falhas na comunicação entre intervenientes são, tipicamente, de cerca de 30% (Latham 1994), sendo este valor citado com alguma frequência (Sjøgren 2006), (Stevens 2006). Esta estimativa carece de alguma fundamentação e não há indicação da sua validade para diferentes países (resulta de uma avaliação da indústria da construção do Reino Unido), pelo que dificilmente poderá ser considerado adequado para a construção nacional.

Uma outra fonte (McGraw Hill Construction 2007) sugere que 3.1% dos custos na fase de projecto são desperdiçados como resultado da falta de interoperabilidade entre intervenientes. Este valor resulta de um inquérito efectuado nos EUA entre intervenientes correspondentes às diversas fases do processo construtivo – projectistas (engenheiros e arquitectos), empreiteiros e donos de obra. Naturalmente, indica a percepção dos respondentes relativamente à questão em apreço, não uma medida objectiva da dimensão do problema.

Um estudo levado a cabo pelo NIST (National Institute of Standards and Technology) acerca dos custos da falta de interoperabilidade de sistemas no sector da construção sugere que nos EUA este valor foi de cerca de 15.8 mil milhões de dólares em 2002, sendo mais de dois terços deste valor suportados pelos utilizadores (Gallaher 2004). Este valor é algo especulativo: resulta da identificação de um conjunto de ineficiências geradas ao longo do processo construtivo e da quantificação do desperdício correspondente. A caracterização das práticas de trabalho das organizações e das respectivas ineficiências foi efectuada com base num conjunto de inquéritos efectuados. Assim, embora haja um significativo grau de subjectividade nos resultados do estudo, a descrição de cenários aos quais corresponde uma gestão da informação optimizada e a avaliação do impacto de cada tipo de ineficiência permitem identificar áreas de intervenção prioritárias na área dos sistemas de informação para a construção.

As medidas referidas anteriormente comparam a situação actual no sector com situações hipotéticas concebidas pelos autores dos respectivos estudos. Não será, pois, de estranhar a disparidade entre os resultados sugeridos pelos diferentes autores.

Não foi encontrada na bibliografia nenhuma medida de ineficiência da gestão da informação, baseada em casos de estudo, que pudesse ser aplicada de forma sistemática ao sector da construção de modo a quantificar o desperdício resultante de sistemas de informação desadequados. Uma medida deste tipo seria, certamente, difícil de construir pelos seguintes motivos:

  1. Dificilmente se pode quantificar os impactos no custo de um erro cometido no processo de construtivo, já que estes têm frequentemente consequências que se prolongam para além da tarefa à qual o erro diz respeito. A selecção de um sistema de impermeabilização desadequado pode resultar em custos acrescidos de construção ou em patologias às quais podem ser associados custos. A incorrecta execução de um elemento estrutural pode provocar deficiências na construção que se tornarão aparentes anos após a sua conclusão ou pode resultar em alterações ao projecto de forma a adaptar a construção aos erros cometidos.
  2. Raramente se podem imputar os erros a uma causa única ou mesmo a uma causa principal. Tradicionalmente, por razões de responsabilidade civil, procura-se apontar o interveniente responsável por uma qualquer deficiência detectada. Existem estudos que dividem os custos dos erros na construção pelos agentes que lhes dão origem (donos de obra, projectistas, empreiteiros, etc.) ou por especialidades (estruturas, impermeabilizações, instalações, etc.). Não se conhece estudos que analisem os erros originados nas áreas de interface entre intervenientes ou entre especialidades, isto é, erros de comunicação que seriam susceptíveis de serem minorados caso tivessem sido usados sistemas de informação adequados. Um estudo deste tipo seria útil como visão crítica do processo de construção na sua totalidade, mais do que uma visão crítica das suas fases isoladas. Seria também um indicador importante para a determinação de prioridades de desenvolvimento para os sistemas de informação.

Aparentemente, esta dificuldade existente em associar benefícios a custos relacionados com investimentos em tecnologias de informação não é exclusiva do sector da construção (Davenport, Marchand 2000). Assim, qualquer avaliação do impacto resultante da adopção de sistemas de informação no sector da construção deve incidir sobre aspectos qualitativos, isto é, sobre sintomas associados à boa ou má gestão da informação.

De acordo com o referido neste ponto, reconhecendo-se a dificuldade em quantificar as perdas decorrentes de falhas na comunicação, interessa detectar sintomas de má gestão da informação que sejam facilmente reconhecíveis. Importa analisar eventuais problemas associados às seguintes tarefas, comuns a todos os intervenientes no processo construtivo:

  1. Recolha/registo de dados;
  2. Tratamento de dados;
  3. Divulgação/Comunicação de resultados;
  4. Validação de resultados;
  5. Implementação.

Apresenta-se em seguida alguns exemplos de sintomas de erros cometidos nas tarefas apontadas acima:

  1. Dados introduzidos manual e repetidamente: Estudos estimam que a mesma informação é introduzida, em média, sete vezes em diferentes sistemas durante o processo construtivo antes da fase de utilização e manutenção (Sjøgren 2005);
  2. Dados apresentam erros/omissões/duplicações;
  3. Intervenientes trabalham com conjuntos de dados de versões diferentes;
  4. Alterações a documentos (especialmente de projecto) são demoradas, obrigam à actualização manual de desenhos e de cálculos efectuados;
  5. Comunicação demorada entre intervenientes.

Muitos dos sintomas apontados são frequentemente encontrados nas diversas fases do processo construtivo.

Os problemas associados a deficiente gestão documental, em particular, os problemas relacionados com a partilha de informação, podem ser mitigados com ferramentas informáticas simples, acessíveis mesmo à generalidade das pequenas empresas do sector.

No decorrer do presente trabalho serão tratados com maior detalhe alguns dos sintomas de má gestão da informação, procurando-se apontar soluções no âmbito das tecnologias da informação. Serão apontadas áreas prioritárias tendo em conta as características dos produtos de construção e das organizações que participam no acto de construir.

Evolução na gestão da informação

Na sequência da distinção já apontada entre gestão da informação e informatização, interessa ponderar se a informática tem melhorado significativamente a gestão da informação ou se o progresso se tem verificado essencialmente ao nível da velocidade de processamento de dados em algumas tarefas. A grande quantidade de sistemas de informação já desenvolvidos parece tornar óbvia a resposta a esta questão. Existem, de facto, muitos exemplos de utilização proveitosa de recursos informáticos para organização e partilha de informação (ERP, correspondência, contabilidade, etc.), mas a análise de casos práticos permite concluir que estes exemplos são pontuais, isto é, que a sua utilização se concentra numa fracção das empresas ligadas ao sector e que não existe no sector uma abordagem sistemática à gestão de informação.

A conclusão aparente é que os avanços na gestão de informação ficam claramente aquém dos verificados no processamento de dados.

Bibliografia

  1. POÇAS MARTINS, J. P. 2009. Modelação do Fluxo de Informação no Processo de Construção - Aplicação ao Licenciamento Automático de Projectos. PhD Thesis, Universidade do Porto.